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Cotidiano de violência em que estão inseridas as mulheres negras no Brasil foi tema de debate promovido pela CESE e SOS Corpo

A CESE e SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia realizaram, no dia 09 de novembro, no Museu de Arte da Bahia, em Salvador-BA, um evento público no âmbito do Encontro de Avaliação do Projeto ”Mulheres Negras e Populares: Traçando Caminhos, Construindo Direitos”, realizado pela CESE e SOS CORPO e apoiado através de edital pela União Europeia, desde 2015. O evento reuniu  lideranças do movimento de mulheres e do movimento negro dos estados do Norte e Nordeste, gestores/as públicos, parlamentares e lideranças do movimento popular.

O evento reuniu  lideranças do movimento de mulheres e do movimento negro dos estados do Norte e Nordeste, gestores/as públicos, parlamentares e lideranças do movimento popular

O objetivo do evento foi dar visibilidade à situação de vulnerabilidade das mulheres negras a partir do monólogo ‘’Isto não é uma Mulata’’, interpretado pela atriz e jornalista Mônica Santana.  No espetáculo, Mônica abordou vivências, sentimentos e superação que fazem parte do cotidiano de violência em que estão inseridas as mulheres negras no Brasil. Após a apresentação teatral, duas participantes do Encontro de Avaliação foram convidadas a iniciar uma roda de diálogo, a partir das reflexões trazidas performance.

Vencedor do Prêmio Braskem 2016, o monólogo ‘’Isto não é uma Mulata’’, interpretado pela atriz e jornalista Mônica Santana, foi apresentado no Museu de Arte da Bahia para as participantes do Projeto Mulheres Negras e Populares

Terlúcia Maria da Silva, da Bamidelê – Organização de Mulheres Negras da Paraíba, comentou que o espetáculo traz experiências, sensações, dores, medos que as mulheres negras sentem todos os dias. ‘’ É impossível não se ver em alguns desses papéis. O corpo negro numa sociedade racista traz vulnerabilidades. Nos encontramos nesses lugares da hipersexualidade e da invisibilidade todos os dias, mas estamos em alguns lugares onde o colonizador não nos colocou, como as universidades. Para as mulheres negras, a fragilidade é um mito. Nunca vivemos essa experiência; não gozamos dos cuidados masculinos e essa diferença de trajetória nos expõe a diversas violações de direitos. No imaginário social, somos mulheres intelectualmente incapazes, mas donas de força física e que servimos apenas para o sexo. A violência contra as mulheres negras é um fenômeno crescente. Há um risco três vezes maior de uma mulher negra ser estuprada que uma mulher branca.  Essa imagem é naturalizada e passamos por um processo de negação desde crianças. Isso leva a uma fragilidade da identidade racial, à negação do ser negro, à falta de representatividade negra. A afirmação política das mulheres negras incomoda. É como se não pudesse ser expressa, pois o seu lugar já está determinado: da vassoura e do sexo. Lelia Gonzales já falava do imaginário perverso associado às mulheres negras: ama de leite, serviçal… Esse imaginário não fica no passado ou na tela da TV. Está no cotidiano, no aumento do feminicídio das mulheres negras, sem que haja uma política pública para o enfrentamento dessa violência. E mesmo todos os avanços nos governos progressistas não chegaram para nós. As mulheres negras têm um histórico de violação de direitos, mas também uma história de resistência que vem se expressando com a Marcha das Mulheres Negras em todo o país. O racismo é um problema da sociedade brasileira e só será resolvido quando todos se dispuserem a enfrentar.’’

Para Terlúcia Maria da Silva, da Bamidelê – Organização de Mulheres Negras da Paraíba, o “racismo é um problema da sociedade e só será resolvido quando todos se dispuserem a enfrentar”

Valéria de Jesus Carneiro, da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará – MALUNGU,  revelou que sentiu muita emoção com o espetáculo, ao perceber sua própria história no texto da peça.  ‘’As mulheres negras são olhadas do pescoço para baixo. Os negros, que sobreviveram aos navios negreiros e construíram o país, deveriam ser respeitados. Em vez disso, enfrentam todo tipo de violações e começa a incomodar o crescimento das políticas públicas voltadas para o povo negro urbano e rural. Neste dia, por exemplo, foi votada a ADIN 3239 – Ação Direta de Inconstitucionalidade – que questiona o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades quilombolas, conforme estabelecido pelo Decreto nº 4.887/2003. No dia 09/11/17, o julgamento foi suspenso novamente por pedido de vistas do ministro Dias Toffoli”.

 

A assessora de projetos da CESE, Rosana Fernandes, aponta que um dos objetivos do encontro é favorecer um espaço de debate para que as mulheres se situem em relação à atual conjuntura do país

“Acreditando na força dos movimentos sociais e, particularmente na força das mulheres negras e dos setores populares para o enfrentamento ao conservadorismo político em curso na sociedade brasileira queremos, com mais esse encontro, favorecer um espaço às integrantes de organizações e movimentos de mulheres para elas debaterem e se situarem na atual conjuntura do país; além de promover voz e visibilidade à causa das mulheres negras e populares”, destaca a assessora de Projetos e Formação da CESE, Rosana Fernandes.

A Secretária de Cultura Arany Santana esteve presente no evento e destacou a importância de debates como o promovida pela CESE e SOS Corpo

Para Sílvia Camurça, do SOS Corpo, as mulheres alvo da ação integram o segmento mais atingido pelas ameaças aos direitos na atual conjuntura. “É sobre as mulheres negras e populares que vão recair todos os cortes das políticas sociais que estão sendo impostos pelo ajuste fiscal. Essa política que tem se mostrado problemática no mundo todo, será está mais grave ainda no Brasil por conta da enorme desigualdade e do racismo que estruturam a nossa sociedade”, afirma. Camurça acredita esses encontros e debates permitem às mulheres pensarem juntas e construírem estratégias para os seus movimentos adotarem na luta por resistência na defesa de seus direitos. “E esperamos que contribua para o fortalecimento desses sujeitos sociais”, conclui.