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Encarregada de projetos da Misereor no Brasil reflete sobre apoio da agência a CFE 2016

[:pb]Em sua quarta edição, a Campanha da Fraternidade Ecumênica conta com reforço internacional em 2016: a agência de cooperação alemã, Misereor, junta-se à iniciativa, pela primeira vez, reforçando as discussões e reflexões sobre o campo de direito ao saneamento básico.

A Misereor é a entidade da Igreja Católica na Alemanha que trabalha na cooperação para o desenvolvimento, comprometida com a luta contra a pobreza na África, Ásia e América Latina. No Brasil, apoia atualmente cerca de 280 projetos de organizações como a CESE, Cáritas, CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), CIMI (Conselho Indigenista Missionário), CPT (Comissão Pastoral da Terra) e CPT (Conselho Pastoral dos Pescadores).

Regina Reinart é encarregada de projetos no Brasil – Departamento América Latina da Misereor

Regina Reinart é encarregada de projetos no Brasil – Departamento América Latina da Misereor

“Para nós da Misereor, é de suma importância ter uma Campanha em conjunto. Posso dizer que hoje em dia não temos como não ver o mundo como se fosse um só. Tudo é conectado, em todos os níveis. No nível econômico, por exemplo, observamos o modelo de crescimento do Brasil que pisa em cima dos direitos dos povos indígenas e tradicionais. Tudo ‘em prol’ de um crescimento no palco internacional”, pondera Regina Reinart, encarregada de projetos no Brasil – Departamento América Latina da Misereor.

No relato a seguir, Reinart conta as razões que levaram a agência a integrar a Campanha da Fraternidade Ecumênica e a importância de apoiar projetos no Brasil diante do atual cenário de retrocesso de direitos.

CESE- Qual a importância e necessidade que a Misereor identificou para decidir integrar a Campanha da Fraternidade Ecumênica?

REGINA REINART – Para entender ambos os aspectos [a importância e a necessidade], temos que contemplar a história da Campanha da Fraternidade no Brasil. Ela teve origem – por incrível que pareça – também na Misereor, pois no Nordeste semiárido nasceram estas atividades fecundas, fruto do Evangelho posto em prática. A Arquidiocese de Natal havia recebido ajuda, a assim chamada “Ação Misereor”. Dom Heitor de Araujo Sales, então sacerdote potiguar, estudando na Europa e passando as férias na Alemanha, trouxe todo o material da Campanha da Fraternidade da Misereor e a divulgação de suas campanhas. Daí nasceu a CF e logo em seguida contou com o apoio do Dom Eugenio Sales e a ajuda dos leigos. Isso foi no ano de 1962. A partir do ano de 1964, a CF passou então uma transição de âmbito local para o nacional. Pessoalmente, acho muito feliz que a partir do ano de 2000 (ano em que cheguei ao Brasil) teve início a CF Ecumênica. Sempre pude participar nas campanhas durante os meus 12 anos no Brasil e agora, este ano, foi um privilégio muito grande poder participar do processo todo junto com CONIC e sim, com as pessoas queridas na comissão responsável pela CFE 2016.

Para nós, é de suma importância ter uma Campanha em conjunto. Pois atualmente, Misereor tem cerca de 280 projetos no Brasil, tanto com a CNBB, a Cáritas, o CIMI, a CPT e a CPP, como também, claro, com a CESE e muitas ONGs, movimentos e pastorais. A parceria entre Brasil e Misereor cresceu organicamente. Temos acompanhado todo o processo do país de perto, desde a ditadura militar (1964 – 1985) até hoje. Temos muitos, mas muitos bons exemplos de projetos que de fato influenciaram a situação no local, na região e em nível nacional. Os projetos trouxeram uma mudança social importante. Continuamos incentivando e apoiando o processo da participação civil, do fortalecimento dos grupos beneficiados para que um dia sejam capazes de lidar com as questões e se sentir cidadãos do país. Aqui entram crianças, jovens, adultos e preocupamo-nos com os povos indígenas e tradicionais.

O que nos preocupa é a atual situação no Brasil. Acreditamos que temos que fortalecer ainda mais os projetos nos seus processos de planejamento, monitoramento e avaliação das atividades. A violação dos direitos humanos, a mudança climática, o agronegócio e sim, o genocídio dos povos indígenas, são temas que discutimos com nossos parceiros no Brasil.

No que diz respeito à necessidade de organizar uma Campanha da Fraternidade em conjunto entre Brasil e Misereor (Alemanha), posso dizer que hoje em dia não temos como não ver o mundo como se fosse um mundo só. Tudo é conectado, em todos os níveis. No nível econômico, por exemplo, observamos o modelo de crescimento do Brasil que pisa em cima dos direitos dos povos indígenas e tradicionais. Tudo “em prol” de um crescimento no palco internacional. É um escândalo como, por exemplo, se trata dos povos Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul. A mídia traz todos os dias mais e mais escândalos, seja com a violência urbana e policial, seja com as injustiças no campo dos grandes projetos de multinacionais. Sabemos dos danos irrecuperáveis que as hidroelétricas causam na região da Amazônia Legal. Belo Monte é o exemplo que assusta todos nós, sem falar das consequências para as pessoas locais. Quero lembrar da Irmã Dorothy que foi assassinada cruelmente no dia 12 de fevereiro de 2005. Outras morreram da mesma maneira. Dom Erwin Kräutler, grande amigo da Misereor, falou sobre este assunto aqui na Alemanha durante a abertura oficial da Campanha de Quaresma de 2016.

Esperamos que a população e os governos da Alemanha e do Brasil assumam juntos a responsabilidade pela CASA COMUM e que “o direito brote como fonte e corra a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). Que consigamos milhares de assinaturas contra a barragem no rio Tapajós e que elas possam tocar no coração do governo brasileiro para que o povo ribeirinho, o povo Munduruku e todas as pessoas na região não sofram as consequências. E sim, que as populações na área urbana e rural consigam um saneamento básico adequado e uma moradia digna. Meu coração bate forte por um Brasil justo! Meus pensamentos e minhas humildes orações acompanham diretamente a terra brasileira e os seus povos queridos.
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