Criar oportunidades para que jovens negros e afro-descendentes tenham acesso ao ensino superior. A proposta da Associação de Agodô Nibu, ligada ao terreiro Ilê Axé Agodô Nibu, em Cachoeira, Recôncavo baiano, está sendo apoiada pela CESE e será concretizada através do Projeto Sócioeducativo Raizes quilombolas que propõe a criação de um curso pré-vestibular gratuito para afrodescendentes, que funcionará no próprio terreiro de candomblé.
Segundo João Ricardo, presidente da Associação, já existe um cursinho pré-vestibular na cidade, mas é necessário um desembolso de cerca de R$ 70 (setenta reais), o que impossibilita a frequencia de boa parte da população local. Se algum jovem quiser ter acesso gratuito ao pré-vestibular, precisa se deslocar até Feira de Santana, cerca de 70 km de distância de Cachoeira.
“Quando estive em São Francisco do Paraguassu, que é distrito de Cachoeira, a mãe de Roseni, uma liderança da comunidade, me falou que ela está pensando em fazer vestibular e precisa se preparar. Para isso, teria que vir morar em Salvador, necessitando de apoio (moradia, transporte, alimentação etc)”, esclarece Rosana Fernandes, assessora de projeto da CESE que esteve em Cachoeira durante o período de análise da proposta.
Mais que um cursinho pré-vestibular, a iniciativa se configura como uma ação afirmativa voltada à juventude afrodescendente. A começar pelo resgate da auto estima através de uma abordagem diferenciada da história, a partir da inclusão, no quadro curricular, de uma disciplina, também de caráter obrigatório, chamada Consciência Negra. Através dela, os jovens tomarão conhecimento da origem do candomblé e da contribuição de famílias gêge, nagô e ioruba na constituição da população de Cachoeira e do Recôncavo. Além de prepará-los intelectualmente para a entrada no mundo universitário, a proposta ajuda a fortalecer a auto-estima e confiança em uma etapa extremamente desafiadora na vida dos jovens negros e afrodescendentes que alimentem expectativas para além do ensino médio.
Essa proposta de valorização da cultura está presente desde os critérios de seleção: “É preciso que o jovem demonstre ter um envolvimento com a causa religiosa, negra”, diz João Ricardo. “A iniciativa pode ser um exemplo deste importante, mas trabalhoso, diálogo entre os terreiros e as novas gerações em busca de suas raízes”, complementa Rosana, que considera oportuno o apoio ao projeto.
Depois de uma análise cuidadosa, a CESE decidiu apoiar a iniciativa da Associação de Agodô Nibu liberando recursos para material, um custo total de R$ 5.037,00.O curso acontece do final de 2008 a dezembro de 2009. O quadro docente será composto por professores de nível superior e com licenciatura em suas respectivas áreas. Todos voluntários por falta de condições, no momento, de viabilizar, se quer, uma ajuda de custo, o que fragiliza a proposta em termos de longevidade. Mas a atitude para dar o primeiro e importante passo não falta: “O quadro de professores já está completo e as aulas começam assim que a greve dos bancos terminar, pois isso está impossibilitando o acesso ao dinheiro liberado pela CESE para a compra do material”, esclarece o presidente da Associação.
Para quem estranha o começo das aulas no final do ano, João Ricardo esclarece: “Nos primeiros meses faremos debates e discussões sobre o programa ativo do vestibular. Os estudos mesmo começam em janeiro”. Segundo João, o objetivo é conhecer as dificuldades de cada um em cada assunto e tentar mudar esse quadro buscando novas metodologias de ensino.