Movimentos discutem conjuntura e estratégias para o futuro (16/11/2009)
Frente às diversas crises mundiais (econômica, climática, alimentar) e à diminuição de recursos da cooperação internacional para o Brasil e a América Latina, representantes dos 19 dos mais importantes movimentos sociais brasileiros trouxeram à tona as dificuldades e estratégias encontradas para lidar com esta nova realidade. No encontro que aconteceu dias 03 e 04 de novembro, na sede da CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço, em Salvador, eles também relataram suas impressões sobre o atual governo do país e redigiram cartas para a CESE. Estes documentos vão contribuir com o próximo planejamento estratégico da instituição.
O Encontro CESE Movimentos Sociais possibilita a reflexão sobre elementos do panorama da luta social hoje. Na roda de diálogo sobre “Autonomia e sustentabilidade política e financeira das organizações e movimentos sociais no Brasil pós-Lula”, Carmem Silva, do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, propôs uma mudança de paradigmas. “A gente precisa investir em novas estruturas capazes de incorporar as diversidades e especificidades das lutas sociais, sem perder a perspectiva de transformação e de uma democracia radical”, declarou ela.
Outro ponto muito destacado foi a necessidade de encontros coletivos entre os próprios movimentos para produzir e planejar mudança estruturais. Essa idéia foi reforçada e validada em muitas outras falas juntamente com a questão da criminalização dos movimentos sociais, percebida em vários espaços de luta. Jaime de Amorim, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) resgatou a história de como as elites colonizadoras trataram todos os que se opunham ao poder e como a burguesia tratou os trabalhadores e as lutas de classe deste país.
“Eles sempre trataram qualquer discordância com repressão e violência”, declarou Jaime. Ele lembrou também a forma como indígenas e quilombos foram quase exterminados. “Eles quase dizimaram essas populações. Não podia ficar exemplo para a sociedade ter qualquer referência”, afirmou. Jaime disse ainda que o povo brasileiro herdou como referência a violência. “Assim nos tratam hoje. Criminalizam nossas lutas e nos mostram como anti-brasileiros, inimigos da pátria”, declarou. Os movimentos reforçaram que o primeiro poder a ser combatido é o poder midiático.
Daniel Cara, que representou a Campanha Nacional pelo Direito a Educação, lembrou o desafio da formação das novas gerações e a ausência de novas lideranças. “O mundo inteiro perdeu as referências intelectuais”, declarou ele que enfatizou também a ausência de liga e de unidade entre os movimentos de juventude. “Os movimentos sociais são líquidos, as estruturas partidárias também. A sociedade mudou. O desafio é saber como enfrentar esta sociedade que não tem referenciais sólidos”, afirmou.
Nessa mesma direção, Ruben Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) lembrou pensadores como Milton Santos, Bourdier, Boaventura Souza Santos comentando a necessidade de reinventar o próprio modo de ler a sociedade, já que os modos antigos não resolveram.
Impressões sobre o governo Lula
De uma maneira geral, as opiniões sobre o governo foram convergentes. Os movimentos reconhecem que há avanços em algumas políticas sociais, mas ainda persistem desafios estruturais. Para Ruben Siqueira (CPT) o projeto político representado pelo Governo Lula não promove mudanças significativas na estrutura de desigualdades e é provável que se estenda por pelo menos 20 anos. Segundo Jaime Amorim (MST), é notório o aumento do poder de consumo dos mais pobres, mas isso não significa a diminuição da desigualdade social do país, pois os ricos estão ainda mais ricos. Além disso, de uma maneira geral, os participantes criticaram bastante também a posição do governo nas áreas agrárias e ambientais, observando um retrocesso no comprometimento com a defesa destas questões.
O que dizem as cartas?
Reunidos em subgrupos, os participantes do Encontro CESE e Movimentos Sociais, elaboraram quatro cartas como produto final do evento. Três de representantes dos movimentos, e uma do grupo formado por representantes da CESE, agências e igrejas presentes. Os movimentos sugeriram áreas e prioridades para os próximos cinco anos, mas também se dirigiram às agências e igrejas que compõe a CESE. “As cartas foram canais para a comunicação de reflexões e sugestões coletivas de grande qualidade e profundidade”, declara Adriano Martins, Assessor de Projetos da CESE e facilitador do Encontro.
Foi ponto comum em todas as cartas dos movimentos o apelo e pedido de atenção das agências para o Brasil. “Apesar dos avanços alcançados pelas políticas de governo, ainda há muito a ser feito que demanda apoio. O Brasil não deve ser visto como um país que já resolveu todos os seus problemas sociais”, diz trecho da carta do Grupo 1
A Carta do Grupo 2 expressa a preocupação com as violações de direito e os altos índices de desigualdades socioeconômicas e civis no país, apelando para a continuidade da cooperação internacional no Brasil. “O trabalho que a CESE desenvolve é muito importante para o fortalecimento da sociedade civil brasileira, para o enfrentamento das desigualdades e para a promoção e defesa dos DHESCA. Não basta dizer não saiam do Brasil. Compreendemos a situação de crise que impacta diferentemente as diversas agências e nos dispomos a colaborar para a construção de estratégias comuns de superação”, cita um dos trechos do documento.
Para Eliana Rolemberg, Diretora Executiva da CESE, o resultado do encontro foi essencial para subsidiar a revisão e reafirmar os campos prioritários de ação da instituição para os próximos anos. “Em 2010 a CESE realizará seu próximo planejamento estratégico. Acredito que este encontro foi fundamental para ouvir a opinião de organizações parceiras e recolher sugestões que certamente influenciarão o nosso futuro”, declarou Eliana. A CESE assumiu o compromisso de se debruçar sobre as questões apresentadas, responder e prosseguir com a troca de cartas.
AMIAB – Articulação de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) / Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), Articulação no Semiárido (ASA) / Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria (CETRA), Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) / Assessoria e Serviços a Projetos em Tecnologia Alternativa (ASPTA), Instituto Socioambiental (ISA)).
Fórum da Amazônia Oriental (FAOR); AMNB - Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB); Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) / SOS Corpo, Ação Educativa, FE Brasil/Koinonia, Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil (CNNEB)/Movimento Negro Unificado.
Grupo 3
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Comissão pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entral Única dos Trabalhadores (CUT), Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES).