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JORNAL A TARDE PUBLICA REPORTAGEM SOBRE PERSEGUIÇÃO A CESE DURANTE A DITADURA

Jornal A TARDE (08-06-2015)
Editoria Política

ESPECIAL: ARTIMANHAS DA DITADURA
Evangélicos progressistas na mira do SNI
Anos de chumbo: Entidade que apoiava cooperativismo era difamada

 

Uma das entidades mais combatidas pelo Serviço Nacional de Inteligência (SNI) na “Operação Igreja”, em Salvador, foi a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), cuja missão desde sua fundação na década de 1970 foi “fortalecer organizações da sociedade civil, especialmente as populares, empenhadas nas lutas por transformações políticas, econômicas e sociais”. Ou seja, tinha tudo para desagradar a ditadura.

A Cese, integrada por reverendos protestantes progressistas, tinha uma posição semelhante à católica Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que combatia o regime militar, apoiava a luta pela democratização do País e a organização popular.

Virou um dos alvos preferenciais das cartas forjadas pelos arapongas do SNI no início dos anos 80, cujo objetivo era difamar o clero progressista do Brasil. No relatório confidencial da agência militar, sobre a “Operação Igreja” obtido pelo historiador Grimaldo Zachariadhes, o SNI registra logo no item “Origem” da ação, o “surgimento da ‘ala progressista’ na Igreja Protestante, através de declarações e apoio financeiro às campanhas tidas como sociais”. Numa das cartas forjadas, “assinada” pelo leitor fictício Edvaldo Menezes, o araponga reclama que a Igreja Protestante, “austera e fiel à Bíblia” estaria a “engajar-se na linha da CNBB, com projetos sociais, e através da ajuda financeira a esses projetos”.

Mais embaixo, cita que a Cese “recebe da I.C.C.D. (Comissão Interclesiástica de Coordenação para Projetos de Desenvolvimento), holandesa, e da Pão para o Mundo, alemã, vultosas verbas para o financiamento de projetos sociais’”.

Contra o social
O personagem criado pelo SNI reclama do “direcionamento” das igrejas protestantes, “no sentido das questões sociais”.

Uma mensagem de protestantes baianos de “solidariedade” ao presidente João Batista Figueiredo, ante a posição da CNBB, é motivo para nova carga dos escribas do SNI. Uma carta é enviada para a Tribuna da Bahia e o Correio da Bahia, assinada por Erivaldo Mendes elogiando a posição dos protestantes e cutucando a Cese: “que sirva de exemplo e alerta ao Cese, órgão subordinado ao Conselho Mundial de Igrejas (Protestantes), que vive a gastar dinheiro com reuniões e conferências em Itaici-SP cujos temas se igualam aos da CNBB, engajando-se na sua política, que é a antítese dos dirigentes das igrejas protestantes baianas”. Outra missiva com, basicamente, o mesmo teor foi enviada para o jornal A TARDE, mas assinada por outro personagem: Antonio Souto.

Dourado
O apoio de evangélicos a Figueiredo rendeu outra carta, essa atacando o professor Celso Dourado, que se tornaria deputado constituinte pelo PMDB em 1984. Dourado não assinou o manifesto em apoio à ditadura, motivo para críticas ácidas dos arapongas.

Num trecho diz que ele tem “antecedentes péssimos, é político ligado às esquerdas”. Lembra que “por ocasião do Congresso Nacional da Anistia, cedeu as instalações do tradicional educandário 2 de Julho, para que nele fosse aí instalado, contando inclusive com a presença do soviético Luiz Carlos Prestes”. A “carta” foi publicada no Correio da Bahia do dia 26 de novembro de 1980.

Zachariadhes disse que o SNI acompanhou a instalação da Igreja Universal do Reino de Deus na Bahia e passou a monitorar os ataques que os pastores dessa organização pentecostal faziam contra o Candomblé. Tudo era reportado a Brasília pelo escritório de Salvador, pois esse tipo de confronto religioso poderia gerar algum tipo de convulsão social, mas a ação se limitou ao acompanhamento. A preocupação dos militares era mesmo com o clero considerado de “esquerda”.

Entidade atacada lutava pela democracia
O assessor de projetos da Cese, economista José Carlos Zanetti, ex-preso político e ex-integrante da organização Ação Popular (AP) não acha estranho que o Serviço Nacional de Inteligência se preocupasse com Coordenadoria Ecumênica de Serviços. “A atuação da Cese era afrontosa para o regime militar, pelas suas fortes ligações com organizações sociais e sua luta pela democracia”, disse, lembrando que a entidade foi criada na Bahia por luteranos, metodistas, presbiterianos dissidentes e anglicanos.

“Era, de fato, a tendência mais progressista dos evangélicos, mas a Cese tinha também ligações com a ala mais à esquerda da Igreja Católica, em especial a tendência da Teologia da Libertação e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil –CNBB”, disse.

Resistência
Além do fomento a projetos de cooperativismo junto a camponeses e trabalhadores, a Cese tinha uma linha de resistência ao regime militar e luta pela democracia. A própria perseguição ao professor Celso Dourado se explica pelas suas ligações com a Cese, explica o economista Zanetti.

“Ele foi um dos fundadores da Cese, transformou o Colégio 2 de Julho, que dirigia, num centro de resistência da ditadura. Vários eventos de luta pela democratização do País e apoio aos trabalhadores, como o 1º de Maio, eram realizados lá”, explicou. Segundo ele, os protestantes ligados à Cese repudiavam a “bajulação” das outras tendências evangélicas ao regime militar e ao seu principal representante na Bahia, que seria o falecido governador Antonio Carlos Magalhães.

Alerta
Zanetti acredita que as revelações da “Operação Igreja” servem para alertar a população brasileira em relação às manifestações de rua que pedem o retorno dos militares.

“(Essas pessoas) Estão reagindo ao sistema que destruiu esse passado nefasto, só porque a classe trabalhadora está invadindo os espaços da classe média”, declarou.

 

As reportagens integram o Especial Artimanhas da Ditadura, do Jornal A Tarde:

07-06-2015 – Jornal A Tarde – Especial Artimanhas da Ditadura: SNI forjou cartas para difamar clero

08-06-2015 – Jornal A Tarde – Especial Artimanhas da ditadura: Evangélicos progressistas na mira do SNI