A negação dos direitos humanos e o bem viver – Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

Notícias

Data: 10.12.21

A negação dos direitos humanos e o bem viver

“Quem tiver duas túnicas, reparta-as com quem não tem,

e quem tiver o que comer, faça o mesmo” (Lc 3,10).

 

Enquanto os poderosos articulam suas maldades a partir de Roma ou dos palácios instalados na Palestina, João Batista, filho de um sacerdote, rompe com a estrutura do templo e vai para o deserto. De lá, passa a percorrer a região do Jordão, divulgando seu programa político-religioso: como “voz que clama no deserto”, ainda hoje nos conclama a “preparar os caminhos do Senhor”, aplanando veredas e estradas tortuosas de tanta gente que não consegue mais enxergar qualquer horizonte (cf. Lc 3,1-6).

Depois de denunciar fortemente o “ninho de cobras criadas” (raça de víboras), João responde a quem ainda resiste: gritemos “abaixo a tirania, fora opressores!”, partilhando o que ainda temos, para que não aumente o número de pessoas a morrer de fome! Até mesmo a cobradores de impostos e a soldados ele dirige suas palavras: “o machado já está posto à raiz das árvores”, é preciso mudar os rumos da nação!”.  Nunca sua fala foi tão atual! Direitos humanos e ambientais são direitos universais!

É tempo de advento, tempo de esperançar ainda mais, buscando forças do mais profundo de nosso ser. Que ao nos debruçarmos sobre a sombria conjuntura, através do texto a seguir, o façamos a partir da experiência de quem continua a sonhar anunciar o evangelho, de quem sempre é capaz de experimentar a gravidez de boas notícias.

 

________________________

O ano de 2021 vai chegando ao fim. A essa altura, a nossa percepção em relação à sociedade civil é que vivemos bastante ameaçados/as e assediados/as por práticas e medidas de exceção, ameaça diária à democracia, o desafio de tratar da chamada “guerra híbrida”, em que o campo da comunicação vai virando um espaço constante na disputa de narrativas, sem que prevaleçam no sentimento comum das pessoas  valores fundamentais de solidariedade e explicitação de que temos ao lado das maiorias espoliadas e dos grupos mais vulneráveis.

Situação ainda mais complexa do que no período ditatorial porque ocorreu um ‘destamponamento’ do espírito do ódio em que qualquer movimento ou pessoa que esteja fora do padrão civil imaginado, como a condição de ser negro, população tradicional, estar fora da lógica do mercado ou da moral ‘judaico-cristã’, é objeto de perseguição e criminalização. O uso predatório dos recursos como solução fácil no equilíbrio das contas, a exemplo do agronegócio predominante e suas cargas pesadas de agrotóxicos, a radical desregulamentação do mundo do trabalho, a privatização dos setores estratégicos da economia, revelam quanto este neofascismo se aproxima do neoliberalismo. Não bastasse essa truculência generalizada, vimos milhares de famílias se enlutarem diante de um vírus que poderia ter sido melhor administrado. Vidas poderiam ter sido salvas.

Terminamos o ano envoltos num mar de incertezas. Mais que o retrocesso das políticas sociais, é de vidas ceifadas, matáveis, que estamos falando.

É preciso destacar aqui alguns pontos imprescindíveis para esta conjuntura:

  1. A distorção da compreensão dos direitos humanos no enfrentamento da pandemia gerando negacionismos e movimentos antivacina, reativando posições reacionárias e anti científicas que dizem se sustentar na ideia de que o direito à liberdade é um direito absolutamente individual e que se sobrepõe a todos os demais direitos.
  2. A fome, a pobreza e a miséria se instalam na vida de milhões de brasileiros/as – Brasil no mapa da fome; governo responde desmontando um programa de estado (Bolsa Família) e criando em seu lugar um programa eleitoreiro (Auxilio Brasil) que vai deixar milhões de fora de qualquer assistência.
  3. Agravamento das relações de trabalho com crescimento da precarização e do desemprego inclusive com a cada vez maior oferta de vagas precarizadas, combinado com a permanência de prática de trabalho indecente, sobretudo para migrantes, trabalhadores/as rurais e outros/as.
  4. O ataque sistemático com práticas genocidas contra povos indígenas, cujas terras vêm sendo invadidas por ações ilegais de mineração e desmatamento, além de ataque sistemático às lideranças e às comunidades que resistem – o mesmo se verifica com outros povos e comunidades tradicionais.
  5. O desmonte das políticas ambientais e o avanço do desmatamento e do ataque aos diversos biomas brasileiros, em especial a Amazônia em seu papel estratégico às emergências climáticas e a liberalização das ameaças a ambientalistas
  6. Segue solta a criminalização e os ataques a defensores/as de direitos humanos – o que se agrava se aprovadas as novas regras da lei antiterrorismo e alguns aspectos da nova Lei de Segurança Nacional.
  7. A violência contra a juventude pobre e preta periférica segue em alta, com a presença de chacinas e ações de violência policial ainda muito enfáticas e presentes.
  8. O racismo segue forte e se reproduz em espaços institucionais, nas relações sociais, sendo estrutural.

Mais do que nunca, neste 10 de dezembro, a defesa dos direitos humanos e o fortalecimento dos movimentos sociais e das organizações populares são partes essenciais da luta. Por isso, a CESE segue reafirmando seu compromisso com a vida e com dignidade humana. 

Este ano, a data testemunha uma profunda crise civilizatória no Brasil, na AL e no mundo. Às portas do processo eleitoral, devemos nos irmanar, nos esperançar para juntos e juntas sairmos às ruas e barrar o descalabro, a perda de direitos e a impunidade. Precisamos acreditar no ciclo da história, para retomar com mais democracia o caminho do Bem Viver, da Paz e da Justiça para a humanidade e para a natureza que nos acolhe.

 

COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇO