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Data: 02.07.20

Ajuda emergencial nas aldeias Xavante afetadas pelas queimadas Associação Xavante Warã com apoio da campanha emergencial CESE

Por Amanda Marqui e Luana Almeida

No ano passado, o país registrou quase 200 mil focos de incêndio, entre janeiro e dezembro, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe. Nesse cenário, Mato Grosso apareceu no topo da lista, com mais de 31 mil focos de calor no período, seguido pelos estados do Pará, Maranhão e Tocantins. Os números representam um aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior (2018).

Em agosto e setembro de 2019, as Terras Indígenas Xavante em Mato Grosso sofreram um número recorde de queimadas. As lideranças Xavante acreditam que em vários casos, os incêndios que destruíram aldeias inteiras e roças são resultados de ações ilegais. Em setembro do ano passado, os parentes informaram à Associação Xavante Warã sobre casos de queimadas nas TIs de Areões, São Marcos e Parabubure. Durante a estação seca as queimadas são frequentes no cerrado, no entanto, acreditam que alguns incêndios são fruto de ações incentivadas pelo governo para a expansão do agronegócio por meio da destruição do cerrado e da Amazônia. A partir da pesquisa no Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-Inpe, verificou-se que 20% dos incêndios em territórios indígenas no estado de Mato Grosso foram do povo Xavante.  No período de agosto a outubro de 2019 o número total de queimadas foi superior a mil casos e a TI Areões foi a mais afetada, com 287 focos. Estima-se que aproximadamente duas mil pessoas do povo Xavante foram afetadas diretamente pelos incêndios. Os relatos dos parentes afirmam que, em alguns casos, aldeias inteiras e roças foram completamente queimados.

As Terras Indígenas do povo Xavante estão localizadas na parte leste do estado de Mato Grosso. São ilhas de cerrado cercadas pelo agronegócio dedicado à produção de soja, sorgo e algodão. As atuais posições do governo e constantes ameaças ao meio ambiente e aos direitos humanos alteraram drasticamente o contexto social e político dos povos indígenas no Brasil. A situação do povo Xavante é preocupante, por isso é fundamental a realização de projetos de apoio para garantia de seus direitos e territórios.

 

Em razão das queimadas, a Associação indígena Xavante Warã (Mato Grosso) estima que, em setembro de 2019, cerca 1.500 indígenas tiveram sua saúde, existência e modos de vida afetados: Terra Indígena Areões 500 pessoas (aproximadamente 100 famílias); TI São Marcos 300 pessoas (30 famílias) e TI Parabubure 1.000 pessoas (aproximadamente 100 famílias). “Falta comida, moradia, falta tudo dentro de casa. Queimaram muitos animais, plantas, ervas medicinais do cerrado. Com isso, nós perdemos a continuidade das práticas culturais da caçada e da coleta de frutas”, avalia, com pesar, Hiparidi Toptiro, conselheiro da Associação Xavante Warã.

Os efeitos dos incêndios criminosos não foram apenas momentâneos. “Perdemos as sementes que a gente ia guardar para 2020”, coloca em perspectiva Hiparidi, que ainda carrega consigo outra problemática que assola os Xavante: o indígena encontra-se em isolamento por ter sido infectado pelo vírus do Covid-19.

De acordo com Hiparidi, este é um momento de reorganização para seu povo e o apoio emergencial, fruto da parceria entre CESE e HEKS EPER, tem papel relevante no fortalecimento desse processo. O projeto apoiado tem como metas: a segurança alimentar das famílias afetadas pelo fogo, mediante a aquisição de alimentos e água; e a recomposição de sistemas alimentares com trocas de sementes, mudas, equipamentos e ferramentas de trabalho para realização de intercâmbios nas Terras Indígenas Xavante. “Tivemos que pedir ajuda para nos reorganizarmos, para a gente enfrentar essa queimada. Primeiramente vamos reconstruir as casas; depois, fazer a roça”, detalha Hiparidi, vislumbrando a recomposição do território e do bem viver dos Xavante.

Dada a gravidade da situação, o Associação Xavante Warã solicitou ajuda humanitária emergencial para ações às comunidades Xavante afetadas pelas queimadas no último ano. As ações foram apoiadas pela CESE, em parceria com a HEKS-EPER, com o intuito de garantir a segurança alimentar das famílias, com aquisição de alimentos e água.

Sobre a Associação Xavante Warã (AXW)

A Associação Xavante Warã é uma organização indígena sem fins lucrativos. Nos últimos vinte anos desenvolve projetos para promover a autossuficiência e sustentabilidade do povo Xavante. Os projetos têm se concentrado extensivamente na preservação e conservação do cerrado, na preservação do conhecimento e compreensão desse bioma.