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Data: 04.11.21

CESE apoia iniciativa de comunicação para o empoderamento de mulheres

Projeto do Levante Feminista ACRE articula mulheres da Amazônia Legal contra o feminicídio através de iniciativas de comunicação

A comunicação pode (e deve) ser uma aliada estratégica fundamental na desnaturalização da violência contra as mulheres e provocação de uma visão mais crítica sobre as práticas costumeiras do patriarcado. Com a missão de enfrentar as expressões da violência contra a mulher, nasceu o Levante Feminista contra o Feminicídio – ACRE, liderado pelo Instituto Mulheres da Amazônia – IMA, como um legado do Movimento Articulado das Mulheres da Amazônia – MAMA. Através do Programa de Pequenos Projetos da CESE, a iniciativa promoveu a qualificação de mulheres em instrumentos de comunicação, redes sociais, além de realizar lives e produção de conteúdos, tratando diretamente do tema dos direitos das mulheres em sua diversidade. Os recursos também contribuíram para formação de uma equipe de profissionais de comunicação, contribuindo no desenvolvimento de ações e estratégias de visibilidade sobre o tema do feminicídio.

O Acre tem elevados índices de feminicídio no Brasil, fruto de uma naturalização da violência doméstica, bastante agravada durante a pandemia. O problema estrutural de uma sociedade patriarcal e extremamente desigual se encontra nas políticas governamentais de incentivo à aquisição de armas e retomada de um discurso conservador, que permite o desmonte dos órgãos e políticas de defesa de direitos humanos. O Levante Feminista contra o Feminicídio pretende pressionar o Supremo Tribunal Federal, bem como demais instituições do Poder Judiciário e Poder Executivo para obter e divulgar dados atualizados da situação de riscos das mulheres no Brasil, e propor políticas públicas.

O projeto busca envolver as mulheres da Amazônia Legal Brasileira na participação no Levante Feminista das Amazônidas contra o Feminicídio e a partir disso, criar condições para consolidação do Levante Feminista nos demais estados da Amazônia Legal Brasileira. Uma qualificação em comunicação foi realizada para aproximadamente 45 mulheres, compartilhando conhecimentos sobre comunicação, uso das redes sociais e mobilização. De acordo com Maria da Conceição Maia de Oliveira, diretora-presidente do IMA, “a comunicação é uma ferramenta para o trabalho de desconstrução da mentalidade equivocada da supremacia do masculino sobre o feminino – que é a raiz de toda a violência que está no patriarcado. A desnaturalização da violência se dá através de um processo educativo, onde a comunicação é um instrumento fundamental para que nós possamos comunicar, não somente como as mulheres em situação de violência, mas com os autores de violência, sensibilizando-os. E nos comunicar com a sociedade para que tenha uma percepção real dos danos desse adoecimento”.

A formação contou com reflexões sobre a violência contra as mulheres, mas sobretudo aproximou as participantes das ferramentas da comunicação e informação. “Direcionada para as mulheres da Amazônia, a ideia é mostrar como as mulheres podem se apropriar dessas ferramentas para ficarem mais qualificadas para uma incidência junto à sociedade, junto aos órgãos que deveriam ser competentes no enfrentamento a violência contra a mulher. Nós pensamos nisso frente a esse desmonte das políticas de enfrentamento a violência contra a mulher, que vinha sendo construída e tinha prioridade no olhar dos governos anteriores” explica a gestora. Ela explica que a fragilização contínua do sistema de proteção de mulheres vítimas de violência, unido ao contexto da pandemia, agravou a realidade de milhares de mulheres. Nesse sentido, a comunicação é fundamental para mobilizar e dar visibilidade à luta: “Queremos estar construindo uma comunicação que a gente se aproprie e se empodere. E empoderamento das mulheres é isso também” acrescenta Conceição.

Mulheres da Amazônia – As mulheres da Amazônia não são um bloco único, mas sim extremamente diversas: rurais, ribeirinhas, seringueiras, indígenas, urbanas. quilombolas, nós temos mulheres negras, mulheres afro-indígenas, mulheres da floresta, rurais, da cidade, pescadoras, as agricultoras, professoras, agentes de saúde, parteiras, quebradeiras de coco, entre tantas outras. Em comum, elas trazem a demanda de articulações urgentes e integradas do movimento social de base.

“Existe aquela visão equivocada, que geralmente as pessoas do Centro-Sul do país e de outras regiões têm da Amazônia: como se fosse tudo igual. É o mesmo equívoco de que sofrem as populações indígenas, lidos como se tivessem uma ação igual. Cada etnia tem a sua cultura, sua língua, o tronco linguístico, enfim.”, pontua Maria da Conceição.

Embora esse público seja tão diverso, a equipe da formação reconheceu que há uma urgência de qualificação na utilização das redes sociais e da comunicação digital: aproximar o público das próprias ferramentas de reunião à distância, explorando a diferenças do próprio grupo, que tem múltiplos níveis de intimidade com esse tipo de ferramenta.  “Essa foi uma experiência piloto e existe uma demanda de continuidade. Elas mesmas falam que precisam de mais prática porque a comunicação é a alma e a essência do nosso trabalho. Seja para desconstruir visões equivocadas, seja para construir um novo olhar, uma nova mentalidade, um novo paradigma, seja para nos qualificar frente a essa realidade perversa, cruel, capitalista, machista, misógina, racista. A gente precisa se qualificar e a comunicação é fundamental. “, conta Conceição, que já está pensando em caminhos para dar continuidade ao trabalho.

Realizada com intervalos quinzenais, a série de lives temáticas, intitulada Fala Mana, permitiu ouvir e conhecer as diferentes experiências de mulheres da região, ampliando o raio de alcance de suas vozes, o compartilhamento de seus sonhos, desafios, mas também seu protagonismo. “Parcerias como a que tivemos com a CESE contribuíram para nossa qualificação para incidência.

A gente agradece muito por esse apoio porque, assim como nós, a CESE acredita que um outro mundo é possível. A CESE conjuga o verbo esperançar com a gente – esperançar não de esperar, mas esperançar de acreditar que a nossa luta é fecunda para construir uma sociedade humana, fraterna, com sororidade, respeito e harmonia” afirma a liderança.

Levante Feminista Acre – O Levante Feminista Acre é formado pela Associação de Mulheres Negras – AMN, pela Associação de Mulheres Indígenas do Acre, do Amazonas e noroeste de Rondônia – SITOAKÜRI, pelo Sindicato das Trabalhadoras Domésticas, Movimento de Mulheres Camponesas – MMC, pelo Movimento Negro Unificado – MMU/AC e pelo Sindicato de trabalhadoras e trabalhadores Rurais de Rio Branco – Acre. A articulação nasceu em março de 2021, tanto em âmbito local, quanto regional, como um manifesto diante da gravidade dos avanços do feminicídio no Brasil. Em suas práticas, o Levante aborda temas conceituais e práticos do feminismo, racismo, misoginia, transfobia, dentre outros.

O Levante Feminista Acre, através do IMA tem exercido monitoramento constante nas redes, nas formas de comunicação/mobilização utilizadas, para obter sucesso em alcançar mulheres indígenas, camponesas, LGBTQIA+, afro-amazonidas, quilombolas, urbanas e periféricas. As redes sociais têm sido usadas de modo estratégico para divulgar ações, mas também tecer mobilizações. O coletivo poderá ser encontrado em redes como Facebook, Instagram, Twitter, Site, Canal no YouTube.

Está previsto para o dia 9 de novembro o lançamento do Levante Feminista das Mulheres da Amazônia, envolvendo representações dos nove estados integrantes da Amazônia Legal brasileira. “Essa ação só é possível porque tivemos o apoio da CESE, que permitiu termos essa equipe de comunicação, gerando mobilização entre mulheres desses diferentes territórios” conclui.