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Data: 17.06.20

CESE celebra aniversário de 47 anos com live sobre ecumenismo, defesa de direitos e pandemia

Neste ano, a CESE celebrou seu aniversário de maneira virtual. A manhã desta terça (16) foi momento de inauguração da série de lives ” Diálogos Ecumênicos e Inter-religiosos”, no canal institucional da organização no Youtube.

A primeira edição abordou o tema ”Ecumenismo para a Defesa de Direitos em Tempos de Pandemia” e teve como convidadas/os Anna Moser (Misereor) e Edgar Sanchez (Pão para o Mundo), representando a cooperação internacional ecumênica. Também compuseram o diálogo as pastoras Romi Bencke (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC) e Helivete Ribeiro (Centro de Estudos Bíblicos – CEBI) e a teóloga feminista Yuri Orozco, que abordaram os desafios e o trabalho ecumênico brasileiro em meio a esse período de crise política e sanitária. A mediação foi conduzida por Sônia Mota, diretora executiva da CESE e pastora da Igreja Presbiteriana Unida (IPU).

Após a fala de abertura do presidente da CESE, Padre Marcus Barbosa, a teóloga Yuri Orozco deu início à sua fala bradando o grito que vem sendo clamado nas ruas de todo o mundo: “Vidas negras importam! Enquanto houver racismo não haverá democracia!”.

As desigualdades que fundam a sociedade brasileira são as raízes dos problemas decorrentes da pandemia e não o Covid em si mesmo, na visão da teóloga. “A crise atual que estamos vivendo tem cor e gênero. É uma pandemia negra e feminina”, define Orozco.

De olho em pesquisas que indicam que população negra está morrendo mais que a branca em razão da pandemia, Yuri especifica que o vírus se prolifera especialmente nas periferias, nas favelas, nas comunidades, onde há população predominantemente negra e chefiada por mulheres. “São grupos populacionais onde prevalece a pobreza em múltiplas dimensões. Não é só falta de dinheiro, é falta de oportunidades, de saneamento básico, educação, acesso a tecnologias como internet. Tudo isso vulnerabiliza a população negra e as mulheres”.

As condições precárias de trabalho também expõem ainda mais esse grupo. Se por um lado, na área de saúde as mulheres negras são as que estão na linha de frente (como enfermeiras, técnicas de saúde e limpeza), elas também são a maioria ocupando postos de trabalho informal ou estão desempregadas ou estão sobrecarregadas pelo excesso de trabalho dentro do espaço de seus lares. A teóloga ainda aponta o aumento da violência doméstica em meio ao isolamento – momento em que se encontram confinadas com seus agressores. “Então, nós podemos dizer que o Covid mata porque há racismo, desigualdade de gênero e pobreza. Não é o Covid que mata, é o Estado, deixando vulneráveis determinadas populações. O Brasil se encontra como barco à deriva em meio a opiniões fundamentalistas, obscurantistas, irresponsáveis, e, muitas vezes, opiniões se tornam políticas públicas. Estamos sem respaldo governamental para enfrentamento à pandemia”, afirma a teóloga, com pesar.

Outra população seriamente atingida são os/as refugiados/as e imigrantes. A  maioria encontra-se alocada no mercado de trabalho informal –  e, com o isolamento, muitos tornaram-se desempregados e estão em situação de rua. Outra problemática é a falta de documentos, o que impede o acesso a recursos públicos. Nesse sentido, Yuri divulga a campanha “Regularização Já”, que tem o objetivo de incidir em políticas públicas para a regularização urgente de imigrantes para que possam ter acesso aos benefícios socais existentes.

Ainda em sua fala, Orozco destaca a importância do trabalho de organizações de mulheres e da ação em rede de denominações inter-religiosas no apoio a populações vulnerabilizadas. Destaca também a necessidade de que as práticas das igrejas atuem no campo emergencial, mas sem esquecer do papel de denúncia e incidência, em razão da situação de fragilidade em que se encontram as políticas públicas brasileiras.

Romi Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, traz elucidações sobre os sistemas que a pandemia escancara de uma vez por todas: a necroteologia, a necropolítica e a necroeconomia.

“A pandemia nos faz refletir sobre o contexto em que vivemos. Não podemos falar de fé sem falar do cenário em que damos nosso testemunho e serviços. A nossa teologia precisa ser extremamente política, resgatando aquilo que é o essencial, aquilo que deve ser central para nossa ação e prática diaconal, com a denúncia das desigualdades sociais, raciais, econômicas, de gênero, ecológicas e apontamento de perspectivas e saídas possíveis”, sinaliza Romi.

A crise sanitária coloca muitas questões para a prática ecumênica e política, pondera a pastora. E sublinha que a prática ecumênica precisa necessariamente ser antiimperialista, antirracista, antiexclusivista e anticapitalista. E aposta na teologia herética como resposta para  a necroteologia. “Os desafios que temos são a prática da horizontalidade amorosidade, escuta, decréscimo da economia e pluralidade, unidade na diversidade”.

Da Alemanha, Edgar Sanchez, de Pão para o Mundo, uma das agências de cooperação internacional de apoio histórico a CESE, dialoga com as falas anteriores e avalia que a pandemia revela disparidades estruturais, por exemplo, em termos de equidade e justiça.

“O vírus está sendo utilizado como argumento de imposição de restrições e violências (física e psicológica). Nesse sentido, Pão para o Mundo está muito atenta em levantar e afirmar leituras críticas sobre políticas para responder à pandemia de maneira global. Muitos países estão usando a Covid para deslocar as prioridades históricas de uma agenda pública e social, de justiça estrutural, com políticas que negam a pandemia ou expõem grupos de pessoas em vulnerabilidade a sofrer suas consequências. PPM tem se pronunciado e expondo essas violações a tomadores de decisão na Alemanha”, informa Sanchez.

Outra representação da cooperação internacional se fez presente na live. Anna Moser, que faz o acompanhamento de projetos no Brasil de Misereor (apoiadora histórica da CESE),  ressaltou a importância do trabalho de organizações e pastorais brasileiras no fortalecimento de grupos e ajuda emergencial. Também pontuou a importância das reflexões que vem sendo feitas com os/as parceiros/as no Brasil para alinhar a direção que será seguida nos próximos meses para atuação no campo de fortalecimento de direitos, não apenas de ajuda emergencial. “É importante fazer incidência nessas políticas que estão tão fragilizadas”, avalia.

Informa também a incidência que Misereor faz na Alemanha e nos governos europeus. “Temos grande responsabilidade. Estamos fazendo incidência, por exemplo, no Tratado de  Livre Comércio entre a União Europeia e o Mercosul. “Do jeito que ele está formulado nesse momento, é um convite total ao desmatamento, à exportação. As cadeias de produção precisam respeitar os direitos humanos”, avalia Moser, destacando a relevância de que aspectos ecológicos sejam ainda mais incorporados às políticas públicas nos pós-Covid.

A vice-diretora da CESE e pastora da Aliança de Batistas do Brasil, Helivete Ribeiro, trouxe, em sua fala, denúncias e, especialmente, anúncios, com exemplos de ações de grupos de mulheres do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco do Centro de Estudos Bíblicos (organização que Ribeiro também integra).

São mulheres que se unem em suas comunidades de base com objetivo de minimizar o sofrimento de pessoas que estão em vulnerabilidade, mesmo sendo as que têm sido mais vitimizadas pelo sexismo e violência doméstica. “Enquanto tivermos força, iluminação da divina Ruah, não podemos desistir nem descansar, porque a luta continua e tem sido mais abrangente. Que tomemos fôlego, nos abracemos virtualmente, por escuta, e mergulhemos no mar dessa rede de solidariedade para podermos nos fortalecer umas com as outras”, incentiva Ribeiro.

Encerrando a live, a diretora executiva da CESE anuncia que essa foi a primeira de uma série de transmissões. As próximas edições trarão temas relevantes para o campo de direitos, com representações de grupos populares e organizações sociais com enfoques de gênero, raça, etnia e diversidade religiosa.

“O ecumenismo é um campo que está em disputa também. Nós temos visto a união de igrejas que estão com campanhas para combater o que o fundamentalismo considera de anticristão. Portanto, como organizações e igrejas que estão comprometidas com uma diaconia transformadora e com um ecumenismo para a defesa de direitos, hoje a nossa voz profética se faz muito mais importante, para que a gente faça realmente essa diferença. Afinal de contas, nossa atuação é alicerçada na fé profética, na fé dialógica, na fé solidária e na fé que resiste. Nós somos herdeiros e herdeiras de um movimento ecumênico que não compactua com as forças da morte, porque a vida humana não se negocia. Não existem vidas descartáveis”, reafirma Sônia Mota, finalizando a live celebrativa do aniversário de 47 anos da CESE.

A roda de diálogo está disponível em nosso canal do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=M1s9mue3wRw

 

Movimentos animam a fé e a luta!

Nos momentos de intervalo das falas, a live foi animada, trazendo sopros de esperança, com depoimentos de representações de projetos apoiados pela CESE, como de povos indígenas Guarani Kaiowa do Mato Grosso do Sul; Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE); Fórum das Mulheres de Pernambuco; e Cooperativa CAMAPET (BA).

Estiveram presentes e manifestaram saudações para a Coordenadoria Ecumênica de Serviço e seu aniversário de 47 anos, diversas organizações, agências de cooperação, pastorais, movimentos sociais e ecumênicos e igrejas, como: CAIS; Grupo Teologando na Serra; Eliana Rolemberg – ex-diretora da CESE e CONFOCO (BA); IPU de Muritiba (BA); ACONERUQ (MA); ELO; GTP+ (PE); CTA Zona da Mata (MG); Igreja Batista da Alegria (AL); MPA; Centro de Formação  Terra do Sol; Aliança de Batistas do Brasil; Centro Dom José Brandão de Castro; CPT; HEKS EPER; Presbitério do Salvador da IPU; CAMI – Centro de apoio e pastoral do Migrante; PAD; CEBI-MS; CEBI – Pernambuco; MUPPS/ CEBIC; CEDITER; CPT Bahia; Frente Evangélica pelo Estado  de Direito; Presbitério  Cidade do RJ – IPU; Associação  Caririense de luta  contra a Aids/ Ceará; CEBI-Curitiba; Fórum  Popular da Natureza; Gambá; CLAI e CLAI Brasil; Movimento Ecumênico de Londrina; ABEMAVI – Ceará; IECLB; Pastoral Operária; CPP; NACAB – MG; MAB; Comunidade  de Barrinhis – Caruaru; CAMMPI; Comunidade  da Trindade; Diaconia/Recife; APNs – Agentes de Pastoral Negros do Brasil; IEAB; Paróquia  Anglicana  do Bom Pastor; Povo Xukuru; CEAS; Igreja Batista Adonai; Cáritas NE3; Cáritas Nacional; diretoria da CESE e companheiros e companheiras da América Latina.

 

Reunião da diretoria

Nesta quarta (17) acontece a reunião da diretoria institucional e executiva da CESE, este ano realizada virtualmente. Estão em discussão as seguintes pautas: apresentação do relatório anual da organização; balanço financeiro; execução de projetos no primeiro semestre; apoio emergencial de enfrentamento ao COVID; e perspectivas para o segundo semestre.