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Data: 08.12.21

CESE conclui projeto de fortalecimento das organizações do Cerrado no enfrentamento ao racismo

O racismo parecia não ser uma coisa tão frequente nos debates de algumas comunidades que cercam a Bacia do Rio Grande, em São Desidério, no oeste baiano, uma região marcada por grande presença de comunidades tradicionais ribeirinhas que vivem da relação com o rio de diversas formas. Tudo muda quando o Inema – Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos autoriza a construção de uma Pequena Central Hidrelétrica na bacia.

Amanda Silva, integrante da Agência 10envolvimento

A partir dali, cabia e fazia-se necessário um questionamento: por que uma empresa tem direito a explorar aquele rio, mas as pessoas que vivem ali não? “O racismo é praticado pelo Inema no processo de licenciamento. Quando ele diz quem tem direito ao ambiente, ou seja: uma empresa que tá ali pelo lucro, pra explorar o território, e não as comunidades que são centenárias ali.”, afirma Amanda Silva, integrante da Agência 10envolvimento.

Essa foi uma das nuances que marcaram os debates que ocorreram dentro do projeto “Fortalecendo as organizações do Cerrado no enfrentamento ao racismo”, realizado pela CESE em parceria com o Instituto Ibirapitanga: identificar formas de manifestações do racismo contra as comunidades tradicionais do Cerrado. Esse depoimento foi dado por Amanda no último dia 25 de novembro, durante o encontro avaliativo do projeto, com organizações que participaram do projeto.

O grupo Comunidades Ribeirinhas do Rio Grande ameaçadas pela PCH Santa Luzia afirma que a obra prevê um canal de 7km, que desviará 80% da água do Rio Grande, secando cerca de 8km de sua extensão. Isso deixaria as comunidades de Beira Rio e parte da Manoel de Souza praticamente sem água no rio e causaria a perda de seu principal sustento de vida, recurso de vivência tradicional, referência de bem-estar e felicidade.

Amanda conta que a perspectiva de que o que acontecia ali era resultado do racismo institucional do Inema foi trazida para as comunidades durante encontros que tiveram para planejar uma manifestação contrária à instalação da PCH Santa Luzia. Ela pontua que é importante levar em conta o impacto que essa discussão terá mais à frente à medida que as comunidades começam a refletir de que forma elas sofrem o racismo.

O projeto teve como foco principal o enfrentamento ao racismo articulado a partir do fortalecimento dos sistemas alimentares sustentáveis de comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado. Além de buscar entender as diversas facetas dessa relação e aprofundar o debate sobre suas questões, a inciativa também apoiou projetos que representavam o enfrentamento ao racismo nesse campo.

Enquanto Maria da Conceição Campos celebra a aquisição de duas caixas d’água para o Quilombo Chumbo, em Poconé (MT), região que sofre com a proximidade dos campos de soja que recebem grandes quantidades de agrotóxicos, Viviane Malmann, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), celebra a distribuição de cartilhas que falam sobre como reproduzir 10 variedades de sementes crioulas em 1m de plantio.

Dentre outras coisas, o primeiro projeto busca o enriquecimento de 10 quintais quilombolas com plantios de mudas nativas, frutíferas e sementes tradicionais, ervas medicinais e resgatar a cultura alimentar das comunidades. Já o projeto do MMC se soma ao congresso do movimento que terá foco na recuperação de sementes crioulas por todo o Brasil, além de contar a história do MMC, etc., tudo envolvendo juventudes de comunidades tradicionais – quilombolas, ribeirinhas e indígenas. Ambas receberam apoio da CESE através dessa iniciativa.

 

Fortalecendo as organizações do Cerrado no enfrentamento ao racismo

Diante de tantos encontros, o projeto conseguiu reunir diferentes realidades que muito têm em comum. Foram momentos tão ricos e diversos quanto o próprio Cerrado. Viviane relata que a partir dessas conversas, conseguiu perceber os cruzamentos que existem entre as necessidades desses diferentes povos.

Viviane Malmann, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC

 

 

 

“Embora sejamos povos em diferentes territórios, as nossas necessidades, os sentimentos, os valores, o amor e a nossa solidariedade e a relação que a gente tem com os recursos naturais são a mesma. É necessário nos engajarmos na luta. Quando a gente faz a luta pela agrobiodiversidade, acaba impactando todos os povos. Nós somos um povo só dentro do campo das florestas e das águas, e que precisa de diálogo”, afirma.

 

 

 

Maria Conceição, por sua vez, fala sobre a motivação que ganhou a partir do projeto. Motivação e força. “Aprendi que de fato vale a pena continuar lutando, acreditando e esperançando. Se a gente luta, nós podemos ter esperança. De lutar para que possamos trazer aquilo que irá amenizar as situações difíceis”, afirma Maria da Conceição.

Temóteo Gomes, da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens,

 

Temóteo Gomes, da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, ressalta é preciso avançar na discussão sobre os racismos (estrutural, ambiental, institucionl) dentro das comunidades tradicionais. “Se estamos aqui é porque acreditamos numa sociedade diferente para elas. O foco principal desse apoio é a gente trabalhar de fato na conscientazação política das comunidades. Só a organização vai fazer com que a gente mude essa estrutura que tá posta sobre nós, sobre as mulheres e jovens.”

 

A inciativa em parceria com o Instituto Ibirapitanga ofereceu apoio a 18 projetos. Ao todo, foram investidos mais de 200 mil reais em projetos de organizações das raízes do Cerrado. Foram 815 mulheres beneficiadas, 584 jovens em um total de 1442 pessoas. No total, foram 34 organizações participantes de sete estados – Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e Tocantins.

 

Assista ao vídeo especial sobre o projeto e veja todas as organizações participantes.