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Data: 28.06.19

Corpos Livres, Estado Laico

Estão abertas de hoje até 1 de julho as inscrições para o Caleidoscópio, um encontro de formação que se realiza através de diálogos e espaços participativos e, desta vez, contará com a presença de mulheres de religiões de matriz africana, mulheres indígenas, teólogas, pastoras, mulheres do movimento ecumênico, cristão, social e feminista, além de mulheres que não professam nenhuma religião. Juntas, iremos debater o avanço dos fundamentalismos e fascismos e os riscos que representam à democracia e à vida das mulheres.

Reagindo ao crescimento dos movimentos antissitêmicos (anticapitalistas, antipatriarcais e antirracistas) protagonizados por mulheres, feministas, população negra, LGBT e classe trabalhadora, as forças neoliberais, ultra-direita e neo-fascistas tomaram o poder, de forma autoritáriaantidemocrática e até mesmo usando de meios ilegais. No Brasil, a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República deu vazão à uma avalanche de posicionamentos elitistas, racistas, homofóbicos e misóginos, que passaram a ser ainda mais incentivados no país. Desqualificando o feminismo, suprimindo os direitos das mulheres e violando a laicidade do Estado a partir de um discurso que já ultrapassa o fundamentalismo religioso, as práticas do presidente, seus aliados e seguidores incitam, através da invocação da absoluta verdade revelada por Deus, o ódio deliberado, gerando um clima em que é impossível qualquer debate.

O ódio na disputa política é o caminho do fascismo segundo o qual o adversário deve ser eliminado. O fascismo nega o debate político de divergências, não confere valor aos procedimentos democráticos e tenta liquidar, simbólica e fisicamente, aqueles que expressam uma posição política ou um modo de vida que difere da norma hegemônica. As igrejas evangélicas neopentecostais, os donos de mídia, setor financeiro, ruralistas, empresariado e milícias são peças importantes na fabricação e propagação do ódio, por terem juntos um projeto de poder.

É antigo o processo de crescimento das religiões neopentecostais nas periferias das cidades, nos grandes centros urbanos, nos territórios indígenas, quilombolas e áreas rurais – lugar algum escapa. Há um projeto teocrático planejado por ministros, pastores e missionários, que tem tido cada vez mais força na definição e/ou ausência das políticas públicas. Eles estão conseguindo, através da mercantilização da fé, alcançar um sistema de governo em que o poder político se encontra fundamentado numa doutrina religiosa sem nenhum caráter espiritual. Levando-se em conta a riqueza que construíram desde a fundação até hoje, essas igrejas ampliaram seu patrimônio em um espaço de tempo muito curto. Juntas, essas denominações religiosas representam um verdadeiro poderio econômico no campo religioso brasileiro, com templos espalhados dentro e fora do Brasil, incluindo países da América Latina, Ásia e África. Tudo isso não significa cristianização, mas um projeto de expansão do poder político e econômico muito grande.

Além das igrejas, os meios de comunicação são fundamentais na propagação da intolerância ao diferente, difundindo uma moral conservadora, violando a autodeterminação e a liberdade de nós mulheres, das pessoas negras e da população LGBT. É necessário compreender que as variações políticas totalitárias do início do século XX só foram possíveis em face do processo de industrialização da Europa e da popularização de meios de comunicação como o rádio, que se tornou muito popular nesse contexto e foi utilizado para transmissão de discursos políticos de líderes fascistas. Esse meio foi peça chave para a cooptação da população que via em tais personagens uma figura “redentora”, “messiânica”. Alguma semelhança com o fenômeno das fake-news espalhadas por essa nova tecnologia de troca de mensagens via whatsaapp que vemos se consolidar como novo meio de comunicação ultimamente?

Por esses e outros muitos motivos, o SOS Corpo convida a todas as mulheres e feministas a refletir sobre as proposições a respeito da laicidade do Estado e pensar sobre a liberdade dos corpos, única possibilidade de existência para aquelas que não expressam gênero de acordo com a heteronormatividade. Para isso abrimos o espaço do Caleidoscópio, um encontro de formação que se realiza através de diálogos e espaços participativos nos quais damos maior importância às contribuições e troca de ideias. Queremos refletir, repensar, resgatar velhas ideias e produzir juntas novos pensamentos sobre como o feminismo, a esquerda e os movimentos sociais podem enfrentar as práticas fundamentalistas e o avanço do fascismo tanto nas nossas relações inter-pessoais, como no contexto político. Convidamos, para provocar as reflexões iniciais, a Yábassê do terreiro Ylê Obá Aganjú Okoloiá e fundadora da Rede de Mulheres de Terreiro, Vera Baroni, a pastora e secretária geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Romi Márcia Bencke, a pastora presbiteriana e Diretora Executiva da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Sonia Mota e a teóloga feminista e conselheira de Católicas pelo Direito de DecidirIvone Gebara.

O curso será realizado entre 11 e 13 de julho, com atividades abertas ao público nas noites de quinta e sexta, e momentos de intercâmbio de saberes apenas entre as mulheres inscritas, nas manhãs e tardes da sexta e sábado. Para o curso, serão selecionadas 70 mulheres, preferencialmente ativistas do movimento feminista, ecumênico, mulheres negras, de terreiro, indígenas e LBTs.

CURSO CALEIDOSCÓPIO

Corpos Livres, Estado Laico
Feministas contra o fascismo e fundamentalismo
De 11 a 13 de julho
Quinta: Conferência aberta ao público das 19h às 21h
Sexta e Sábado: 9h as 18h
Sexta: Lançamento de livros das convidadas a partir das 19h
Local: MTC | Rua Gervásio Pires, 404, Santo Amaro, Recife
Inscrições até 01 de julho: https://forms.gle/t9CyLiKsA2E2xB1b6

Publicado por  em 27 de junho de 2019

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