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Data: 27.07.21

Das aparentemente simples às mais elaboradas, estratégias de segurança digital e autoproteção são fundamentais para populações quilombolas

Rascunhos, anotações ou lembretes. Estes são alguns dos possíveis nomes de algo que vem se tornando um hábito cada vez mais comum para muitas pessoas: aquele grupo no aplicativo de troca de mensagens em que só o/a dono/a do smartphone está presente. Eles geralmente são utilizados para anotar coisas importantes – ideias, compromissos, agendas, etc.  Apesar de prática, esta não é uma estratégia segura.

No caso dos aplicativos hegemônicos, as empresas que os criaram costumam afirmar que toda mensagem enviada por meio deles está “protegida por criptografia”. Mas a verdade é que, por se tratarem de empresas privadas, não há como verificar se elas estão cumprindo o que prometem, portanto não há garantia de que ninguém está monitorando essas mensagens e compartilhando detalhes importantes do seu dia a dia.

Para além deste aspecto, também é recomendável que se evite enviar senhas por meio deles, realizar reuniões, etc. Recorrer a plataformas de comunicação com código aberto e de softwares livres pode ser uma alternativa para conseguir maior proteção. Para pessoas que vivenciam conflitos por terra, por exemplo, – como no caso de muitas lideranças quilombolas –, é preciso atenção redobrada.

A segurança na comunicação foi uma das pautas do “Webnário Gbani: Autoproteção Comunitária e Cuidados Digitais”, realizado pela CESE de forma virtual nos dias 22 e 23. O Gbani tem como público lideranças quilombolas e, dentro dessa realidade, a discussão sobre a comunicação segura suscita outros debates: como o da desigualdade na distribuição de internet.

A internet é uma rede mundial que interliga computadores para troca de informações. E para que esse processo aconteça, toda uma estrutura física é acionada, incluindo-se aí um movimento por meio de cabos que vão da Europa aos Estados Unidos, por exemplo – tudo feito de forma submersa, cruzando oceanos.

Então se existe essa estrutura para ligar países em diferentes continentes, como a internet não é uma realidade de todas as comunidades quilombolas? Por que a internet que chega nessas comunidades geralmente é de baixa qualidade? Isso traz barreiras à comunicação dessas populações e pode acarretar outros riscos. A distribuição desigual de internet, assim como a distribuição desigual de terra, água, alimento e renda é proposital.

A educadora da MariaLab formadora do Gbani, explica que estas estruturas estão a serviço de pessoas específicas, empresários. “Toda essa estrutura tem dono. No Brasil não há uma política de distribuição de internet. As pessoas que estão perto de centros urbanos conseguiram acompanhar melhor as aulas durante a pandemia. Foi uma escolha política do nosso governo, ano após ano, não levar infraestrutura de internet pra nossa população.”

No âmbito virtual, estes são alguns elementos que permeiam o debate sobre comunicação segura. Mas essa discussão não está restrita ao mundo online. Ela está relacionada a outra pauta proposta pelo Webinário Gbani: a da autoproteção. Foi a partir daí que a AATR – Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais orientou as lideranças a pensarem estratégias mais concretas de enfrentamento e de prevenção a situações de risco.

As estratégias incluem ações como a formalização coletiva de denúncias sobre ataques ou ameaças, o diálogo e fortalecimento de redes de apoio, o acesso a fundos emergenciais para fortalecimento institucional do movimento, entre outras medidas.

A discussão também se voltou para as potencialidades e vulnerabilidades enxergadas nas respectivas comunidades. Dentre as potencialidades, as lideranças quilombolas presentes no encontro destacaram a atuação coletiva dos movimentos em prol da criação de candidaturas pra pleitear cargos públicos em todas as esferas – federais, estaduais e municipais – em busca de garantir sua própria representatividade nesses espaços.

 

O Gbani

O Webinário Gbani foi realizado pela CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço em parceria com a AATR – Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais, MariaLab e uma consultora mestra em Comunicação Midiática. O Gbani conta com apoio da Fundação Ford e tem por objetivo sensibilizar e contribuir para o fortalecimento de ferramentas para a gestão autônoma dos riscos e da segurança comunitária na luta por direitos.

Para Rosana Fernandes, Assessora de Projetos e Formação da CESE, a proteção das comunidades e das organizações do movimento quilombola é fundamental para o avanço e conquista de direitos. “A qualidade dos serviços prestados para as comunidades é desafiadora para as organizações e penso que isso é também uma forma de impedir que o movimento avance, se organize para reivindicar direitos. O Gbani tem se mostrado como uma experiência exitosa no campo da proteção comunitária e dos cuidados digitais.”.