Debate público lota MAB com movimentos sociais de todo o Brasil – Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

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Data: 14.03.17

Debate público lota MAB com movimentos sociais de todo o Brasil

O auditório lotado do Museu de Arte da Bahia, fruto da mobilização para o debate público “Democracia e direitos sob ataque – um olhar dos movimentos sociais”, expressou a sintonia coletiva de movimentos sociais em busca de alternativas aos retrocessos de direitos que vêm sendo vivenciados no Brasil. Realizado nesta terça (13), o evento teve como intuito articular lideranças de grupos populares de todo o país para discutir os desdobramentos do golpe político que o Brasil atravessou e os retrocessos de direitos que a sociedade brasileira vem atravessando.

Com mediação de Sônia Mota (diretora executiva da CESE), compuseram a mesa Guilherme Boulos (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST), Sônia Guajajara (Articulação de Povos Indígenas do Brasil – APIB), Marizélia Lopes (Movimento de Pescadores e Pescadoras – MPP) e João Paulo Rodrigues (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST). O debate público foi uma realização da CESE com apoio do Museu de Arte da Bahia, Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

“É um escárnio, ministro da Justiça disse que ‘terra não enche a barriga de ninguém’. Quando faz declaração dessa, dá o tom da canetada que vai dar”, avalia Sônia Guajajara, referindo-se ao recém-empossado no cargo, Osmar Serraglio, e antevendo as futuras violações de direitos que os povos indígenas irão enfrentar. A saída, na percepção da coordenadora da APIB, é a mobilização popular. “Juntos somos mais fortes”, bradou diante dos presentes.

A liderança do MST, João Paulo Rodrigues, elenca os desafios a serem avançados pelo” bloco da resistência”, como ele define os movimentos de esquerda: 1) frente de Curitiba, com a Lava Jato; 2) grande capital, que pressiona para aprovação das Reformas da Previdência e Trabalhista; 3) grandes partidos de direita; 4) e os “amarelinhos” (referindo-se a manifestantes de direita, em alusão ao uso das cores da bandeira do Brasil), que convocam manifestações.

Desconstruindo os posicionamentos/ações das alas conservadoras, João Paulo joga luz sobre suas divergências e pondera que são em cima deles que blocos de resistência têm poder de atuar: “pacote econômico, que criou contradição com a base trabalhadora; a Lava Jato, que atinge também o lado deles; e as eleições 2018, como vão fazer para manter a coesão”. E avalia o peso desses itens: “não são fatores fáceis de administrar. Quando a dialética não ajuda, a fé ajuda”, exclamou, arrancando risos e renovando a fé dos presentes.

Ainda apontando para as problemáticas que envolvem o governo, Guilherme Boulos afirma que o Brasil passa por duas crises: uma deles é a política, um esgotamento da Nova República, “momento perigoso em que surge sentimento perigoso de anti-política”, reflete a liderança do MSTB. E uma crise econômica. “Em 12 meses, país retrocedeu 50 anos, com a PEC congelando gastos em educação e saúde por 20 anos, reforma da previdência, reforma trabalhista, privatização. É um governo da espoliação. Mas como é um governo ilegítimo, então não tem a quem prestar contas”, ressalta.
Boulos ainda coloca na balança e destaca que “o telhado de vidro” do governo pode ser peça-chave para a mobilização popular. “Um milhão de pessoas saíram do plano de saúde para o SUS [Sistema único de Saúde]. A fome está voltando com força no país. Alguma reação forte vai ter. Agora o povo começa a perceber que é com eles também”, avalia.

E detalha desafios das esquerdas diante desse cenário: recuperar capacidade de mobilização; e definir o que é programa político da esquerda para o Brasil. “Não há espaço para pequenos programas, tem que ter enfrentamento. Não dá para negociar com Odebrecht de um lado e com Movimento Sem Terra do outro e conseguir bons acordos. O momento é de radicalização da democracia”, constata.

Enquanto todos e todas apontam as violações de direitos que vem acontecendo pós-impeachment, Marizélia Lopes (Movimento de Pescadores e Pescadoras – MPP) traz para discussão coletiva que esses retrocessos vêm acontecendo muito antes disso. “É uma falsa democracia que estamos vivendo. Comunidades tradicionais pesqueiras vêm sofrendo ao longo dos anos. Foram muitos golpes que a gente sofreu, modelos de desenvolvimento adotados no Brasil vem nos atropelando”. E conclama os presentes. “Cerca nas águas, derrubar!”.

Encontro bianual
O debate público “Democracia e direitos sob ataque – um olhar dos movimentos sociais” faz parte da agenda “CESE e Movimentos Sociais”, encontro bianual que a CESE realiza: um momento de reflexão crítica coletiva, que a permite estar em sintonia com os movimentos e, assim, cumprir a sua missão de fortalecer suas lutas por direitos e democracia com justiça.

Neste ano, a reunião entre a organização e movimentos sociais acontece de 13 a 14 de março nas dependências da CESE. A programação inclui a reflexão dos movimentos sobre seus principais desafios, estratégias de organização, articulação e incidência política e a coleta, por parte da CESE, de subsídios para orientar o seu trabalho nos próximos anos – prioridades, novos campos ou estratégias de atuação, mudanças necessárias nas formas de atuar entre outros.

Confira as fotos do evento na fan page da CESE
https://www.facebook.com/cese1973/