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Data: 10.11.21

Diálogos em Rede: mulheres cerradeiras refletem juntas sobre suas lutas e desafios em encontro promovido pela CESE

Dona Maria do Socorro, integrante do MIQCB – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, é uma daquelas mulheres que, quando falam sobre as coisas nas quais acreditam veementemente, passam sensações diferentes em cada palavra lançada – afeto, raiva, força, amor, resistência, experiência. Vontade de defender e de atacar ao mesmo tempo. Proteger. É assim quando ela fala do Cerrado, da sua terra.

Dona Maria do Socorro, integrante do MIQCB – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Toda vez que a gente entra na terra, no mato, em nossas reservas, seja onde seja: nós saímos com uma fruta pros nossos/as filhos/as comerem, um peixinho pra se alimentarem, água pura e limpa pra eles/as beberem. Nós não temos dinheiro, mas temos a riqueza da mata.”. Essa foi uma de suas falas potentes durante o encontro “Diálogos em Redes: Gênero e Raça no Cerrado”, promovido pela CESE em parceira com HEKS-Eper.

A ação tem como objetivo impulsionar o fortalecimento político organizativo das articulações de mulheres do Cerrado, além de favorecer intercâmbio de experiências entre elas e movimentos mistos de mulheres; impulsionar maior visibilidade de suas ações; e dar continuidade ao debate sobre as relações entre classe, raça-etnia e sexo-gênero na conformação da situação social das mulheres do Cerrado.

Durante o encontro, Maria do Socorro também denunciou o contraste entre o conhecimento das mulheres quebradeiras de coco sobre Palmeira – a importância que a árvore tem em suas vidas – e a invisibilização à qual são expostas quando chegam os momentos de decidir os futuros do Cerrado como um todo, dos seus meios de sobrevivência – invisibilização essa imposta pelo patriarcado e pelo grande capital.

“Nós protegemos a Palmeira porque ela nos fortalece. Nos anima, traz o ar que a gente respira, é a beleza da floresta, faz permanecer as águas e além de tudo nos sustenta: desde o estrume do canteiro, à horta, ao óleo que temperamos a comida, ao sabão que lavamos a roupa, ao alimento que comemos, à casa que moramos debaixo. Mesmo assim a gente é escutada? Não”, afirma a quebradeira de coco.

E completa. “E vem o tal do Matopiba. É o desenvolvimento capitalista que manda no governante que precisa de dinheiro. Quem tem dinheiro são os grandes projetos, os grandes investimentos, com grandes derrubadas e acabam com nossas riquezas. Nós é que somos ricas! Não essas grandes empresas que tem capital pra investir, de desenvolvimento, que desmantela, que desmonta, que mata as pessoas.”.

E assim como dona Socorro, outras mulheres de potência proferiram outras falas potentes no encontro. Carmem Silva, do SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia, foi convidada a falar sobre as imbricações entre sexo-gênero, raça-etnia e classe social, e focar nos problemas da situação vivida pelas mulheres no bioma, considerando também as desigualdades entre as mulheres.

Ela pontua que todos os desafios trazidos aqui durante os diálogos dizem respeito à situação de vida das mulheres e às desigualdades que as mulheres vivem, mesmo as da classe trabalhadora, em relação aos homens. “E mais ainda dizem respeito às desigualdades vivenciadas no Cerrado por mulheres que tem alguma outra identidade além de ser mulher, à qual também é objeto de desigualdade – ser negra, indígena”.

Carmem Silva, do SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia

Ela usa um exemplo trazido por uma integrante da roda, acerca da diferença entre a desigualdade salarial ocorrida na cidade e no campo. “Quando homens são contratados, famílias são contratadas. Mas as mulheres não são pagas, só os homens. Esse exemplo de certa forma sintetiza a gravidade do todo. Porque ele demonstra como, mesmo no interior da classe em que trabalha, as desigualdades em relação às mulheres são socialmente instaladas. Estão dadas. E se a gente não se organiza para enfrentá-las, elas permanecem.”

Carmem também questionou a equivocada noção de que algumas pautas são de todos e outras apenas de mulheres e como esse mecanismo opera em desfavor das lutas femininas. “A questão da regularização dos territórios, a própria luta pela terra, do enfrentamento ao agronegócio. Interessante como essas questões contam com a atuação de todos/as, mas as de violência contra a mulher ou de dar crédito a essas lideranças são vistas como lutas ‘da mulher’. Se essas pautas não forem levadas por mulheres, muitas vezes elas não entram no debate. E mesmo quando elas levam, às vezes é uma batalha para ser ouvida.”.

 

Diversidade de pautas e denúncias

Maryellen Crisóstomo, integrante da CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas

O encontro contou com a participação de mulheres de diversos segmentos e, diante disso, várias pautas e denúncias vieram à tona durante as conversas. Maryellen Crisóstomo, integrante da CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, falou sobre a demarcação de territórios, principal bandeira da sua organização.

“A gente entende que as violências que acontecem sobre os povos quilombolas parte de não termos acesso pleno ao território. Por exemplo: no Tocantins, apenas dois quilombos têm sua área demarcada e somos 38 quilombos no estado. Nós não somos reconhecidos/as totalmente pelo estado brasileiro, nunca fomos recenseados como grupo populacional, esbarrando na falta de dados demográficos.”, aponta a quilombola.

Flávia Guarani, da Kunhangue Aty Guasu

Flávia Guarani, da Kunhangue Aty Guasu, conta que a rede nasceu em 2006 e as mulheres foram orientas por anciões/ãs a criarem a Assembleia de Mulheres Guarani Kaiowá porque, antes, elas participavam dos encontros, mas não conseguiam falar. “Hoje as mulheres Guaranis Kaiowá tem a sua autonomia e condição de fazer o debate. Os principais trabalhos de nós mulheres guaranis hoje é construir as casas medicinais. Nós conseguimos através de projetos construir essas casas.”, conta a indígena.

“A gente também está trabalhando sobre soberania alimentar, fazendo roças comunitárias. A gente já fez encontros de sementes crioula. Estamos fazendo mapeamento de violências contra mulheres, que estão acontecendo em todo estado. Nós mulheres em linha de frente estamos sofrendo muitas perseguições.”, complementa.

As discussões ainda atravessaram com a autonomia das mulheres, a necessidade de espaços específicos para elas dentro das próprias redes e articulações, a importância de se forjar novas lideranças, algumas dificuldades do campo da articulação interna, enfrentamento ao agro e hidronegócio e as lutas diárias contra grandes empreendimentos que tentam destruir suas terras, águas e lares.

 

Gênero e Raça no Cerrado

A CESE tem investido em uma série de atividades com os grupos do Cerrado, aprofundando o debate em torno do reconhecimento do quanto as opressões vivenciadas no território, pelo poder e força do capital, têm uma relação intrincada com as intersecções de gênero e raça. Desta vez, serão duas oficinas. Esta primeira aconteceu nos dias 03 e 04/11; a segunda será realizada nos dias 16 e 17 de novembro.

Os dois primeiros dias foram marcados por momentos de trocas. Debates sobre os desafios que as mulheres enfrentam para se organizar no Cerrado e quais são as pautas principais e as formas de luta que as elas levam em frente no bioma, entre outras pautas. Agora elas têm a tarefa de trazer para os próximos encontros dois elementos da comunicação feita por suas articulações.

Participaram desse primeiro momento, representações da Rede Cerrado; Articulação de Mulheres do Cerrado;  ALAGBARA- Articulação de Mulheres Negras e Quilombolas do Tocantins; Coletivo de Mulheres pelo Cerrado/Oeste da Bahia; RAMA – Rede de Agroecologia do Maranhão; Kunhangue Aty Guasu; Takiná; MIQCB – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu; MMC – Movimento de Mulheres Camponesas; e CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas.