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Data: 15.09.22

Em nome da união e do respeito, grupo inter-religioso leva abraço simbólico ao Terreiro Ilê Axé Toalegi

“Um momento que representa a união e o respeito”. Assim Mãe Rosa do Axé, Ialorixá do Ilê Axé Toalegi, definiu o abraço simbólico levado ao seu terreiro na manhã desta quinta-feira (15). Lideranças de diferentes crenças religiosas foram à sua Casa para demonstrar solidariedade e reafirmar seus compromissos com a luta contra o racismo religioso e em nome do diálogo inter-religioso.

“Pra mostrar que nem todos tem preconceito. Mesmo sendo cristãs ou católicas, são pessoas que mostram que podemos andar entre eles. Tá tudo certo se todo mundo se respeitar”. Ela completa dizendo que o preconceito e a intolerância nunca partem dos povos de terreiros para os cristãos/as. “A falta de respeito é sempre deles com a gente.”

Um terreiro que ao longo dos anos já foi alvo de ameaças, ataques preconceituosos cheios de raiva e vazios de explicação hoje abriu suas portas para acolher e celebrar a diversidade e receber o abraço de religiões da tradição Cristã em sinal de respeito.

 

O terreiro de Mãe de Rosa, ela própria e seus filhos de Santo já foram vítimas da violência fundamentalista. A Ialorixá conta que  já ameaçaram jogar pedras no terreiro, alegando incômodo com o volume das celebrações. Mãe Rosa também diz ter ouvido  insultos vindos dessa mesma vizinha. Em outro caso, o babalorixá foi atingido por uma rajada de lama, arremessada de fora do terreiro para dentro.

Geovane Cardoso, Babalaxé do Ilé Axé Toalegi, fala sobre o preconceito que começa no dia a dia. “As crianças que reproduzem falas nas escolas, sobre nossos ritos e vestes. Se em uma conversa com um amigo, dizemos ‘em nome de Oxum’, nos respondem dizendo ‘tá repreendido’. Somos repreendidos o tempo inteiro.” Ele também rebate um dos ataques mais comuns sofridos pelos povos de terreiros.

“Dizem que nós somos adoradores do diabo. E nós nem temos esta figura na nossa religião. Não. Nós adoramos os Orixás. Os orixás são a força da natureza – o mato, a água doce, a água salgada, entre outros. E quem criou tudo isso? Deus. Nós amamos Deus acima de tudo e só queremos respeito”.

O abraço ao Terreiro Ilê Axé Toalegi aconteceu simultaneamente a outros em todo Brasil e marca a celebração do Dia do Ubuntu, uma ação proposta pelo Fórum Ecumênico ACT – Brasil, o Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB), a Associação Brasileira de ONGs (ABONG) e a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.

Estados como São Paulo, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Paraná e o Distrito Federal também levaram abraços simbólicos a terreiros que vêm sofrendo ataques intolerantes nos últimos anos.

 

Inter-religiosidade

 A diversidade foi um fator marcante do Dia do Ubuntu em Salvador que foi organizado pelo CEBIC- Conselho Ecumênico Baiano de Igrejas Cristãs, CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço e Koinonia – Presença Ecumênica. Lideranças de outros terreiros e de diversas igrejas Cristãs compareceram ao ato – Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) Igreja Luterana -, além de representantes da Comunidade da Trindade e do Movimento dos Focolares.

Sônia Mota, pastora da IPU e Diretora Executiva da CESE, destacou que este dia é o reconhecimento do significado do Ubuntu. “sou o que sou pelo que nós somos”. Eu só sou cristã porque nós somos toda esta diversidade, e isso é a nossa maior fortaleza.   Cultuamos e celebramos de formas diferentes, mas não somos inimigos. Esse encontro nos deixa mais fortes, nos ensina que o amor é o bem maior. Estamos aqui hoje no dia do ubuntu para um gesto concreto de abraço aos terreiros: de afeto, acolhida e profundo respeito.

Iyá Márcia de Ogum, Ialorixá do Ilê Axé Ewá Olodumare, reforça que acredita verdadeiramente no diálogo inter-religioso. “Acredito na construção da paz através do respeito. Precisamos de mais ações como essa partindo do outro lado, porque nós, enquanto candomblecistas, estamos sempre querendo essa paz, querendo agregar, querendo abraçar. Se hoje estamos celebrando o Dia do Ubuntu, eu precisaria estar aqui não só para fortalecer Mãe Rosa, mas também nossos irmãos cristãos que estão diariamente construindo essa paz.”

Bianca Daébs, pastora da IEAB e Assessora para Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CESE, afirma que o Dia do Ubuntu realizado no Terreiro Toalegi de Mãe Rosa, foi um momento especial porque reuniu pessoas cristãs de várias denominações, católicas e Protestantes, além de pessoas de outros Terreiros. “Lideranças que se uniram para celebrar o amor e dar testemunho de que é possível conviver com a diversidade de modo respeitoso e digno. Foi um tempo de confraternização, também de dizer com o gesto do abraço coletivo no terreiro que nos somamos às pessoas de religião de matriz africana em suas lutas diárias contra a intolerância e o racismo religioso que os agridem”.

Camila Chagas, da Igreja Católica Apostólica Romana e da equipe de KOINONIA, defende que esse seja o abraço de todos os dias. “Porque ser cristão é amar. Amar é acolher, respeitando o outro na sua diversidade. Nós não somos iguais, somos diferentes, mas estamos unidos e o amor é o mais importante”.