Encontro de Agentes de Projetos: conceitos de raça/etnia, gênero e classe foram usados pelo capitalismo para subjulgar populações – Movimentos Sociais | Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

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Data: 18.10.22

Encontro de Agentes de Projetos: conceitos de raça/etnia, gênero e classe foram usados pelo capitalismo para subjulgar populações

A cada ano, perdem-se 10 pequenos rios devido à contaminação das águas. Nos últimos 3 anos, o Brasil bateu recordes na produção do agronegócio, ao mesmo tempo em que bateu recorde em número de pessoas passando fome. Esses são dois dados científicos que mostram bem o impacto do capitalismo no planeta como um todo. Ambos têm ligação direta com as questões de Gênero, Raça/Etnia, Classe e com o Cerrado.

Os dados foram abordados por mulheres representantes desses povos, durante o Encontro de Agentes de Projetos, realizado pela CESE em parceria com HEKS-Eper entre os dias 11 de 13.  O encontro pautou debates sobre desenvolvimento, impacto do agro, do hidronegócio e da mineração nos territórios, mudanças climáticas, experiências socioeconômicas alternativas e esses pontos balizaram a discussão sobre gênero, raça/etnia e classe e suas relações com os territórios do Cerrado.

Ao longo dos últimos anos, a CESE vem buscando contribuir para a ampliação do debate sobre as implicações entre gênero e raça nas vivências dos povos e comunidades tradicionais que vivem no Cerrado. O EAP foi mais um momento pensado com este objetivo, além de ser um momento de avaliação do que foi construído até aqui e reflexão sobre as ações e perspectivas de continuidade para este trabalho.

O Encontro foi mediado por Carmen Silva, coordenadora do Instituto SOS Corpo e contou com participação majoritária de mulheres de representantes das organizações que tiveram projetos apoiados dentro desta iniciativa e vem integrando os grupos das oficinas e demais atividades.

 

Análise do contexto no Cerrado

A discussão sobre gênero, raça/etnia e classe foi precedida por uma análise de contexto no Cerrado e algumas mulheres foram convidadas para contribuírem com o debate. Valéria Santos, da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, pontua que a noção de desenvolvimento que o Estado brasileiro imprime sobre o Cerrado inviabiliza os povos e apaga a memória de várias comunidades tradicionais que existem no cerrado.

“Mas essa noção é proposital, é um projeto político. Hoje o Cerrado é uma das regiões que apresenta alta diversidade de povos. Isso é uma forma de resistência, de assumir que essa não é uma noção verdadeira. O Cerrado não é um bioma único, ele é diverso. Ele é como a pele de uma onça-pintada”, afirma Valéria.

Emília Costa, integrante do Movimento Quilombola do Maranhão, demonstra preocupação com a saída da juventude dos territórios, em um movimento de adesão ao discurso capitalista que tenta pregar às comunidades tradicionais uma imagem de improdutividade. Ela destaca a importância da educação para fortalecer processos de retomada de territórios que foram roubados por fazendeiros, por exemplo.

“Através dela vamos ensinando os nossos filhos/as a partir do chão em que a gente pisa. Assim, vamos ter um jovem que se sente parte do território e faz parte do processo de luta. Nós não teremos nosso território titulado de uma hora pra outra. Por isso, precisamos formar pessoas para continuar a luta. Um dia, nossos anciãos irão partir e precisaremos assumir o legado deles”, pontua Emília.

Outros relatos narram a luta contra as violações de direitos, os conflitos no campo que acabam ceifando vidas, a contaminação dos rios e privatização das águas no oeste da Bahia, além do avanço do agronegócio e da violência do Estado.

Gênero, Raça/Etnia, Classe e Capitalismo

 

Carmen explica que Classe/Gênero/Raça/Etnia organizam o sistema. E o sistema só é tão dominante porque ele é cultural, econômico, social e político ao mesmo tempo. Ela pontua que esses critérios são utilizados para dividir a população. “Se usam características físicas ou culturais para fins de subjugação. É como se a raça branca não existisse; como se a branca fosse o ‘normal’, e a raça é a raça negra. O capitalismo se apropriou do conceito para dominar e explorar. No Brasil, a escravidão foi legitimada”.

Do ponto de vista da discussão sobre gênero, ela diz que o mundo é baseado na noção binária homem-mulher. “Na questão da identidade de gênero, todos que se afastam da noção padrão do homem tem menos poder”. Sobre classe, ela destaca a existência dos bilionários, os ricos, os pobres, os muito pobres – exploração. Sobre etnia, trata-se de um conceito que diz respeito a tomar uma população com características próprias para categorizá-las.

“Tudo que discutimos até agora em relação ao Cerrado se enquadra nesse modelo de desenvolvimento. Dentro do mundo não existe apenas o capitalismo. Mas os outros sistemas desenvolvem a produção capitalista. Isso gera perdas para quem realmente produz. Hoje estamos disputando os impactos do desenvolvimento. Obviamente a corda arrebenta do lado mais fraco. Então, os impactos serão maiores nos lados socialmente mais fracos: mulheres, indígenas, entre outros/as. Como podemos nos organizar para aumentar nosso poder e disputar os rumos do desenvolvimento?”, finaliza.

 

Momento de contribuições para o trabalho da CESE

O momento final do Encontro de Agentes de Projetos foi marcado pela avaliação das participantes da trajetória até aqui e também de sugestões do que pode ser incorporado ao trabalho da CESE nesta iniciativa. Temas como a mudanças climáticas e capacitações para compreensão dos impactos na vida de quem está no Cerrado, formação em comunicação para jovens, fortalecimento institucional foram algumas das sugestões.