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Data: 19.05.21

Feira Livre virtual e escambo de experiências marcam “Oficina Sistemas Alimentares e a Luta Antirracista”, realizada pela CESE

A feira livre é muito mais do que um espaço de comercialização: é um espaço de troca. Ela diz sobre a produção agrícola de determinado local, sobre seus aspectos culturais e vem carregada de ancestralidade. Ali estão inseridos conhecimentos que foram passados de geração para geração com muito afeto e sentimento de luta. Assim foi a “Feira Virtual:  Escambo de Aprendizados e Boas Práticas Agroecológicas e Antirracistas”.

Realizada nas manhãs dos dias 17 e 18, a Feira Virtual foi um momento em que integrantes das organizações que vêm participando do projeto “Fortalecendo as organizações do Cerrado no enfrentamento ao racismo”, realizado pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço em parceria com o Instituto Ibirapitanga, expuseram algo significativo para si.

A Feira fez parte da programação da “Oficina Sistemas Alimentares e a Luta Antirracista” e os itens trazidos por cada participante tinham um objetivo específico: responder à questão “o que eu trago da minha experiência que ajuda a compreender ou a enfrentar o racismo nos nossos territórios e nas nossas experiências de produção de alimentos?”.

Para Jackeline Silva, integrante do IMUNE – Instituto de Mulheres Negras, foi a imagem de São Benedito. “Símbolo que materializa e contempla dimensões da fé, do espiritual. Aquilo que é invisível e nos fortalece. Ele é o santo protetor dos cozinheiros, dos escravos. De fé, de luta e de resistências, mas também de partilha e comunhão, algo que temos feito bastante”, relata.

Jackeline Silva, integrante do IMUNE – Instituto de Mulheres Negras

Laura Silva e Iolanda Silva, ambas quilombolas de Livramento-MT, colocaram sob a esteira a resistência a fazendeiros, delegados, policiais através de suas roças de toco. Elas trazem a banana, fruta típica da cidade, artesanato, bonecas negras, mel. “Nossa resistência se dá pelos produtos da roça. Se não fosse por eles, hoje não estaríamos contribuindo com nossa história”, diz Laura.

Laura Silva e Iolanda Silva, mulheres quilombolas de Livramento-MT

A jovem Beatriz Silva, moradora de Correntina-BA, estudante e integrante do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, traz como símbolo a farda de sua escola. “Eu estudo numa escola agrícola que tem como símbolo a enxada e a caneta: a enxada simbolizando nossos modos de vida no campo e a caneta como a teoria. A agricultura familiar, sustentável, é sim uma saída”.

Beatriz Silva, integrante do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens

Como um espaço de troca, a Feira foi dividida em dois momentos: no primeiro dia, todos/as apresentaram o que trouxeram e, no segundo, disseram o que levariam dela. Jorge Gonçalves, de Maracajú-MS, integrante da CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, diz que leva muitas experiências boas.

“Fico até emocionado de ouvir esses jovens falando. Vejo que a nossa luta não está morrendo, ela tá nascendo cada vez mais forte. O enfrentamento ao sistema é difícil, mas você tem que estar com um facão numa mão e o enxadão do lado: o facão pra cortar a cipoeira dos empecilhos e o enxadão pra plantar as sementes de novos conhecimentos que você tem na mão”, declara.

Jorge Gonçalves, integrante da CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos

Antônio Souza Silva, homem quilombola de Esperantina-PI, aponta um sentimento parecido com o do colega Jorge. “O que eu levo daqui é esse fortalecimento coletivo. Desde o primeiro seminário até as oficinas, a gente tem se fortalecido muito com todas as falas. Dá pra perceber que a luta não está parada. E a gente precisa estar fortalecido pra continuar”.

Antônio Souza Silva, homem quilombola de Esperantina-PI

E assim foi a Feira. Um espaço de troca entre mulheres negras, homens e mulheres quilombolas, povos indígenas, ribeirinhos e urbanos. Troca de símbolos, de conhecimentos, de estratégias de sobrevivência e de experiências que lhes dão força todos os dias para enfrentarem os racismos ambiental e estrutural; para enfrentarem o agronegócio assassino, cada vez mais munido do próprio Estado.

 

Agroecologia em territórios indígenas e quilombolas

A Feira Virtual foi apenas um dos momentos que marcaram a Oficina. No primeiro dia, duas pessoas falarem sobre experiências agroecológicas em seus territórios. Francinete Medeiros, estudante da Educação do Campo, integrante do MOQUIBOM  – Movimento Quilombola do Maranhão e da coordenação regional do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens; e Arildo Cebalio, indígena do Povo Terena, em Miranda-MS, e coordenador da CAIANAS – Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para a Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade.

Fran trouxe a experiência de sua comunidade, no centro-leste do Maranhão. “Nossa comunidade é um ponto no meio de um círculo: ao redor é tudo soja, eucalipto e milho transgênico. O agronegócio tem avançado muito sobre os nossos territórios”, mas em contraponto a isso, nós buscamos nos organizar”.

Francinete Medeiros, integrante do MOQUIBOM  – Movimento Quilombola do Maranhão e da coordenação regional do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens

E fala sobre as experiências de seus quintais agroecológicos e a predominância de mulheres nessas produções. “A sobrevivência das nossas comunidades está nos nossos quintais. As mulheres são protagonistas aqui e nós produzimos arroz, feijão, fava, azeite de coco, artesanatos a partir do babaçu”, aponta. Vender os produtos artesanais também tem sido difícil, mas uma estratégia adotada tem sido a feira coletiva das quilombolas.

A comunidade em que Fran vive fica localizada à beira de uma rodovia. É lá que essas mulheres instalaram a feira. “Os produtos são expostos lá e as mulheres revezam o dia em que cada uma fica na feira, responsável pelas vendas”, conta, embora a pandemia tenha afetado o seu andamento. Mas um fator de destaque na produção de sua comunidade é a discussão do antirracismo nos produtos.

Sempre discutimos o antirracismo na nossa comercialização. Não é qualquer produto que a gente vende. É o nosso, do território quilombola. Buscamos trazer ancestralidade neles. A etiqueta dos nossos produtos tem a Dandara dos Palmares. A gente tenta trazer nossa identidade nos produtos pra agregar valor, pra que essas pessoas não digam ‘ah, comprei em um quilombo qualquer’, mas sim que você comprou um produto 100% livre de agrotóxicos, das quilombolas, diretamente do nosso território”, finaliza.

Arildo, por sua vez, conta que sua experiência com as agroflorestas já se dá em um caminho de volta; a agroecologia mudou completamente seu modo de viver. Um exemplo, ele conta, foi o primeiro pensamento que lhe veio quando seu povo conseguiu a terra em que hoje parte deles está instalado. “Vou plantar feijão, mandioca, milho. Sistema de monocultura, que a gente conhece”.

Arildo Cebalio, coordenador da CAIANAS – Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para a Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade

Foi a partir de uma formação sobre o tema que ele mudou sua percepção. Hoje ele é coordenador da organização CAIANAS, um fiel defensor e praticante da agroecologia. “A terra que nos sustenta em tudo. A agroecologia é uma forma de você devolver pra terra tudo que ela faz por nós”. Sobre esse aspecto de retribuição, ele conta histórias que ouviu de seus anciãos.

“Eles iam nos nossos córregos, tiravam o alimento de lá e hoje eles estão secos. Através da agroecologia, a gente pode recuperar isso, trazer de volta essas vidas. Hoje eu vejo bastante bicho quando tô indo pra casa: macaco, quati, anta, veado. Graças a Deus que tem nossa terra pra eles sobreviverem também”.

Por fim, Arildo deixa uma mensagem de união para todos e todas que participaram da oficina. “Eu quero somar com vocês, incentivar pra que cada vez mais vocês se encorajem e que sua autoestima fique lá em cima. Que vocês nunca abaixarem a cabeça para as críticas que vêm de fora. Somos de culturas diferentes, mas somos todos irmãos e irmãs”.

 

Outros momentos

A “Oficina Sistemas Alimentares e a Luta Antirracista” trouxe novidades. O jovem Neiriel Pires, indígena do povo Terena, em Miranda-MS, ficou responsável por organizar alguns momentos do encontro – uma forma pensada para trabalhar e incentivar a liderança dele, de outras juventudes presentes ali e, a partir destas, de outras que não puderam participar do encontro.

Descobriu-se que aquela mesma Jackeline Silva, que trouxe a imagem de São Benedito para a Feira, é autora do livro Afro Paladar. Nele, ela denuncia o racismo também culinário, que se manifesta na gourmetização da comida: está apropriação de práticas culinárias tradicionais e a inserção de elementos brancos – como um homem branco, chefe italiano –  para seu posterior encarecimento, eliminando o seu teor ancestral.

Para Olga Matos, integrante do Setor de Assessoria de Projetos e Formação da CESE, a oficina deixou sementes. “Como pensar a feira agroecológica sem sementes? Aqui vimos sementes de tudo quanto é variedade. Mas também sementes de esperançar”. Para Rosana Fernandes, também do Setor de Assessoria de Projetos e Formação, as falas e participações de todas e todos ali incentivam a CESE no cumprimento de sua missão de fortalecer as organizações sociais.

A Oficina foi encerrada na manhã desta quarta-feira (19) com mais uma conversa sobre a elaboração de projetos. Esta é a segunda oficina realizada dentro do projeto “Fortalecendo as organizações do Cerrado no enfrentamento ao racismo”, que tem como foco principal o enfrentamento ao racismo articulado a partir do fortalecimento dos sistemas alimentares sustentáveis de comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado.