Movimento de mulheres do Nordeste refletem sobre incidência nas relações de cooperação e filantropia no 1º Encontro do Programa Doar para Transformar – Movimentos Sociais | Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

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Data: 01.10.21

Movimento de mulheres do Nordeste refletem sobre incidência nas relações de cooperação e filantropia no 1º Encontro do Programa Doar para Transformar

Com essa poesia inspiradora “A noite não adormece nos olhos das mulheres”, de Conceição Evaristo, Sônia Mota, diretora executiva da CESE, saudou as participantes no 1° Encontro Doar para Transformar, realizado pela organização nos dias 29 e 30 de setembro, por meio de uma plataforma online. A atividade contou com a participação de 36 mulheres nordestinas, entre elas, mulheres negras, ativistas, quilombolas, indígenas, camponesas, quebradeiras de coco, catadoras de mangaba, jovens, comunicadoras, trabalhadoras domésticas, evangélicas, de terreiro, e LGBTQIA+, que protagonizam diariamente a luta pela defesa de direitos e pela democracia no Brasil.

O encontro integra a primeira etapa de construção coletiva do “Programa Doar para Transformar” (Giving for Change), que pretende fortalecer as capacidades das organizações de influenciar as relações de poder Norte e Sul Global no âmbito da cooperação e filantropia, e também ampliar o reconhecimento da importância dos recursos locais para o processo de desenvolvimento e para o campo da defesa de direitos. O cronograma prevê a realização de cinco anos (2021 a 2025) de atividades em conjunto com organizações de mulheres do Nordeste, que vão desde apoio a projetos e encontros de formação, até diálogos estratégicos com outros atores sociais.

“As mulheres são uma força política grande, mas ainda não têm o reconhecimento devido. Essa iniciativa tem a potencialidade de contemplar a dimensão de gênero nos debates sobre a cooperação a partir das experiências locais e fazer diferença nessas relações. Por meio da participação coletiva, queremos impulsionar reflexões e aprendizados, e também alimentar a incidência nacional e internacional para transformação. O foco central do trabalho será a chamada ‘Comunidade de Prática’ formada por organizações de mulheres do Nordeste.”, informa Viviane Hermida, assessora de projetos e formação da CESE.

Pensar essa iniciativa requer um olhar para o processo político atual do Brasil, uma análise dos enfrentamentos que atingem os corpos e as vidas mulheres, como também as conquistas e desafios que estão por vir. No encontro, as convidadas Bárbara Pereira, do Fórum de Mulheres de Pernambuco, e Emília Costa, do Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM), trouxeram suas perspectivas sobre como as mulheres vêm atuando nos seus territórios diante da conjuntura. Dentre as questões levantadas, a acentuação das desigualdades e violência, os fundamentalismos, o racismo, o ataque aos territórios, as estratégias de luta, a força coletiva, a dimensão do cuidado e o protagonismo das mulheres na redução de impactos e defesa da vida na pandemia foram os principais elementos apontados para o debate.

Bárbara Pereira -Fórum de Mulheres de Pernambuco

Bárbara apontou a força do feminismo popular e as ferramentas de resistência em rede, sem deixar de responsabilizar o Estado pela ausência de políticas públicas. Para ela, a conjuntura impõe o desafio na construção de lutas a longo prazo, como enfrentamento às violências sexistas e racistas, mas quando há articulação e mobilização, também acontecem conquistas em um período de tempo menor: “No cenário nacional a gente só perde, mas tentamos construir pontes para nos mantermos em atividade e com ânimo. As redes de solidariedade são exemplo de acolhimento e de coesão mútua, que nos ajudam a avançar sem deixar nenhuma de nós para trás. E isso já é uma vitória”, afirma a integrante do Fórum de Mulheres de Pernambuco.

Emília Costa -Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM

Neste contexto da força da coletividade, Emília explica o papel de extrema importância das mulheres nas lutas de resistência e manutenção dos territórios: “Nos conflitos territoriais, somos nós que estamos na linha de frente. Quando cortam a cerca e quando os tratores invadem nosso território, as primeiras pessoas que chegam para impedir são as mulheres.”, em referência a invisibilidade imposta pelo patriarcado e pelo machismo. A jovem quilombola conta um pouco sobre o trabalho de desconstrução e conscientização realizado nas comunidades. “Temos desafio de levar nossa mensagem e nossa desobediência. Nosso desejo é que libertem nossos corpos e nossas mentes, porque não adianta ter território livre com corpos e mentes presas. Se brigamos pelo território, estamos lutando para que desate todas as relações de poder e opressão dentro dele.”.

A urgente necessidade de participação dos processos democráticos, ocupação nos espaços de poder e articulação de novas estratégias de luta também foram questões recorrentes e muito bem lembrada pelas mulheres no encontro. Piedade Marques, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, mencionou a disputa política de candidaturas de mulheres negras nos processos eleitorais como uma simbologia forte das nordestinas: “A quantidade de iniciativas em cada pedacinho do Nordeste foi muito potente. Da perspectiva do poder, acho que conseguimos dar um passo extremamente significativo para quebrar imagens de nós mesmas sobre qual é o nosso papel, que sempre foi nos negado.”. E Jész Ipólito, da Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra, exemplificou iniciativas trazidas pela juventude como colaborações fundamentais para ações políticas: “Podemos pensar como agregar poesia, rap, grafite nesses cinco anos de projeto. Como trazer outras linguagens, tornar esse ajuntamento de mulheres um espaço que possa reverberar essa multiplicidade que vemos e sentimos.”, afirma a comunicadora.

Movimento de exibição da facilitação gráfica de Mônica Santana

Nesse primeiro encontro, as mulheres tiveram a oportunidade de se ver, enquanto coletivo. Com a colaboração de Mônica Oliveira, consultora e integrante da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, a CESE realizou um mapeamento para identificar organizações para compor a “Comunidade de Prática” do programa, trazendo incidência política, mobilização de recursos e comunicação como eixos principais. Em reação ao resultado da pesquisa, Denize Ribeiro, do Fórum Marielles, parabenizou a iniciativa por priorizar a região Nordeste, pela realidade histórica e pelas desigualdades: “Uma mudança nessa balança vai impactar no país como um todo, porque temos atuado praticamente sozinhas. Os financiamentos, as políticas e as relações para nossa região sempre foram desiguais e discrepantes.”, explica Denize.

Dinâmica sobre desejos de transformação no movimento de mulheres

Ao longo dos dois dias, as participantes foram convidadas a refletir juntas sobre a iniciativa estimulada pela CESE. As mulheres realizaram trabalhos em grupos para definirem coletivamente como essa articulação pode ser potencializa, com espaço aberto para sugestões, dúvidas, críticas e incorporação de novos coletivos. Um sentimento compartilhado é o de que a mudança pode e deve acontecer a partir dos movimentos de mulheres. “Estamos aqui para fortalecer nossas companheiras e também nos fortalecer”, afirma Elisa Urbano Ramos, indígena do povo Pankararu e representante da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). E com o mesmo otimismo Klesia Maria da Conceição, da Associação do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), declama seu poema: “Essa luta não é fácil, mas vai ter que acontecer. As mulheres organizadas têm que chegar ao poder”.

Sobre o Programa Doar para Transformar

A CESE está iniciando uma caminhada de cinco anos com Programa Doar para Transformar (Giving for Change), apoiado pela agência da cooperação holandesa Wilde Ganzen, através do Ministério das Relações Exteriores. O programa envolve internacionalmente oito países do sul global, Brasil, Burkina Faso, Etiópia, Gana, Quênia, Moçambique, Uganda e Palestina.

A iniciativa tem entre seus objetivos contribuir para a adoção de práticas mais equitativas no sistema internacional de desenvolvimento, inclusive a partir das ideias de mobilização de recursos nacionais e filantropia comunitária.

Na CESE, o foco do trabalho será o fortalecimento e aprendizado coletivo entre organizações do movimento de mulheres do Nordeste. O programa tem a duração de cinco anos (2021 a 2025) e conta com uma série de atividades: Apoio a projetos; Formação nas áreas de Incidência, Comunicação e Mobilização de Recursos; Encontros temáticos sobre Sustentabilidade, Comunicação Estratégica, Incidência Política e Jurídica; Diálogos Estratégicos com Academia e os Poderes Públicos; Planejamento, Monitoramento e Avaliação, e Sistematização.