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Data: 09.11.21

No novembro negro, CESE fortalece comunidades quilombolas nas suas ações de mobilização de recursos

A conjuntura de crise socioeconômica e pandêmica tem causado impactos e trazidos desafios para sustentabilidade de grupos e coletivos que mais sofrem as consequências das desigualdades sociais, sobretudo, os/as quilombolas. Questões de demarcações de terras, racismo ambiental e múltiplas violências estão entre os problemas mais enfrentados por essa população. E para ajudar a garantir as ações de resistência, e vida duradoura para as organizações, a CESE realiza neste mês de novembro a Formação Virtual em Mobilização de Recursos Locais para Quilombolas, com o apoio da Fundação Ford.

Imagens dos primeiros encontros da Formação Virtual em Mobilização de Recursos Locais para Quilombolas

A iniciativa integra o Virando o Jogo, programa de apoio ao fortalecimento de organizações nas áreas de mobilização de recursos locais e incidência política. E tem como objetivo contribuir com organizações do movimento quilombola para discussão e planejamento sobre mobilização de recursos, e auxiliar na construção de instrumentos de comunicação capazes de motivar a adesão de indivíduos às causas. As primeiras etapas da formação virtual aconteceram nas últimas sextas-feiras (29/10 e 05/11) e na oportunidade, mais de 20 pessoas entre mulheres, homens e jovens de comunidades tradicionais trocaram informações e experiências sobre fortalecer essas capacidades.

Os primeiros encontros possibilitaram que a turma começasse a refletir sobre a importância da mobilização de recursos, diversificação de fontes e potenciais parcerias. Leane Souza, da Cooperativa Rede de Produtoras da Bahia (Cooperede), e Reinaldo Avelar, da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (ACONERUQ), abriram o debate sobre como tem sido a busca por apoio nas suas organizações e como a estruturação de processos organizativos contribuem para melhorar as condições da sustentabilidade de grupos e redes.

Reinaldo Avelar (ACONERUQ)

 

“Com esse curso, a ACONERUQ passou a realizar ações planejadas e coordenadas. Internamente, ampliamos nossa visão sobre onde queríamos chegar e quais são os recursos necessários para o cumprimento da nossa missão, e ampliamos nossas redes doadores.”, conta Reinaldo em referência aos aprendizados colhidos em um curso oferecido pela CESE em 2019. E alerta para iniciativas privadas e até governamentais que violam direitos socioambientais: “É importante fazer filtros e reavaliar parcerias para não fragilizar a luta quilombola.”, pontua.

 

Leane Souza (Cooperede)

Com essa mesma percepção, Leane trouxe a experiência dos produtos da agricultura familiar e artesanatos comercializados em territórios rurais e comunidades quilombolas: “Os artesanatos oriundos de materiais extrativistas, da palha e do sisal, como nossos doces e polpas não só geram renda para rede, mas trazem autonomia paras as mulheres.”. E compartilhou ações bem-sucedidas para estimular a reflexão e o esboço das primeiras estratégias para atrais recursos humanos e financeiros: “No leilão mudo as pessoas doam pequenas contribuições por nossas produções, como dois reais, cinco reais, moedas, aquilo que elas podem oferecer. Quem doa o maior valor, leva o prêmio. No último, conseguimos arrecadar três vezes mais que o valor do produto.”, finaliza.

A valorização das produções, mencionadas por Leane, e corroboradas por Magno Nascimento, da comunidade quilombola África (PA), permite não só a mobilização de recursos no contexto de desenvolvimento criativo, mas a promoção da autoafirmação e resistência das comunidades quilombolas. “Primeiro contamos a história do produto. Trazemos a lembrança histórica e afetiva para sensibilizar as pessoas. Não é a venda em si, mas a socialização do nosso saber, da nossa cultura e da nossa identidade para valorização das cerâmicas e artesanatos, nosso carro chefe, além da farinha, verduras e legumes.”, informa o participante também integrante da MALUNGU. E complementa que essa estratégia de abordagem oferece maior visibilidade à produção cultural e pode conduzir maior autonomia para a comunidade: “Estamos no meio da floresta Amazônica, conseguindo manter nossas ações e ampliar as articulações, por causa do projeto com os artesanatos. Hoje, temos 54 artesãos/ães cadastrados/as e já ganhamos seis prêmios nessa ideia e caminhada de luta.”, informa Magno.

Os pontos de convergências entre potenciais apoiadores/as e as organizações da sociedade civil, os limites das relações com o setor privado, o ciclo da mobilização de recursos e suas principais características também foram temáticas abordadas durante o curso. Para Valdicelia Nascimento, da Organização Quilombola do Cerrado, a iniciativa chega em um momento importante para o desenvolvimento das ações nas comunidades: “O curso está ajudando a movimentar nossas ideias e a refletir sobre o que queremos e para onde queremos ir. Importantes estarmos nesse movimento, unindo as forças para continuar lutando por autonomia nos quilombos.” E com mesmo entusiasmo, Lucilene Kalunga, quilombola do estado de Goiás e integrante do Grupo de Mulheres Negras Malunga, avalia como têm sido os aprendizados: “É mais uma oportunidade para termos mais emancipação dos nossos territórios e, não ficar dependendo de terceiros para conseguir executar nossas ações.”, avalia Lucilene.

A formação, composta por cinco encontros por meio de uma plataforma online, inclui o acompanhamento de trabalho por organização à distância, e produção de podcasts como materiais complementares. O curso conta com participação exclusiva de grupos quilombolas da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ), da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), da Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará (MALUNGU) e Organização Quilombola dos Cerrado.