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Data: 05.06.20

Pessoas que vivem com HIV/Aids recebem o apoio da CESE durante pandemia

Em todo o mundo, a pandemia da Covid-19 segue em dimensões catastróficas, embora alguns países tenham conseguido controlar os contágios. Atualmente, o Brasil está em quarto lugar no ranking mundial de mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, Reino Unido e Itália. De um modo geral, há uma propensão de que epidemias expõem e agravam as desigualdades sociais, com impacto mais forte entre grupos marginalizados e vulneráveis. E como já se sabe os/as mais pobres, negros/as, moradores/as das periferias, indígenas e populações mais vulnerabilizadas sofrerão mais com a propagação do vírus e com o colapso do sistema de saúde.

Veja o mapa global da BBC News:

Entre essa população vulnerável estão as pessoas que convivem com HIV e Aids, que assim como aqueles/as que não possuem convivência com vírus, devem seguir as medidas de prevenção para minimizar a exposição e o risco de contrair a SARS-CoV-2, causadora da COVID-19. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), embora haja um crescimento significativo do tratamento de HIV nos últimos anos, 15 milhões de indivíduos que vivem com a doença não têm acesso à terapia antirretroviral, o que pode comprometer seu sistema imunológico.

Com o objetivo de continuar preservando a saúde dessas pessoas, a CESE apoiou, através da Metodologia Dupla Participação, o projeto “SOLIDARIEDADE POSITHIVA – Assistência e prevenção no enfrentamento ao Covid-19” da Associação Caririense de Luta Contra AIDS, localizada em Juazeiro do Norte, no estado do Ceará. A proposta teve como objetivo contribuir para a minimização dos possíveis impactos socioeconômicos e negativos da pandemia junto à essa população da cidade, como também, orientar sobre as medidas preconizadas pelas autoridades sanitárias, voltadas para o afastamento social, proteção individual, higiene pessoal e coletiva.

  

O estigma e a questão de saúde

Para Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS, “Para passar por isso precisamos aproveitar nossa valiosa experiência de responder a outras epidemias globais, como a do HIV: fundamentar a resposta em direitos humanos, envolver as comunidades e não deixar ninguém para trás.”, declarou Byanyima em matéria veiculada no site da organização. No entanto, o governo brasileiro pouco aprendeu com essa experiência e com outras doenças epidêmicas como varíola, meningite e febre amarela. Além de ser contra recomendações médicas e científicas, o presidente Jair Bolsonaro já declarou publicamente, semanas antes da pandemia, que “Uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil” reforçando o estigma e contradizendo a realidade das despesas do governo com a saúde.

Ronildo Oliveira, coordenador da Associação Caririense de Luta Contra AIDS, explica, que discursos preconceituosos e estigmatizantes como esses dificultam processos de tratamento e prevenção, sobretudo em comunidades menores: “O coronavírus nos traz à tona o mesmo sentimento, medo e preconceitos do início da epidemia do  HIV/Aids no mundo e mais ainda nos lugares menores e sem acesso as informações claras.  Temos visto com a pandemia esta realidade mais forte em nossas comunidades, com pessoas soropositivas, pobres, LGBTQI+, negros/as e da periferia onde o vírus já é bem presente.  Infelizmente há uma segregação até neste momento de pandemia.”, afirma Ronildo.

Segundo dados divulgados em novembro de 2019 pelo Ministério da Saúde, aproximadamente 900 mil indivíduos convivem com o HIV, 766 mil foram diagnosticados/as, 594 mil fazem tratamento com antirretroviral e 554 mil não transmite o vírus. Em 2018, o número de pessoas vivendo com HIV era menor, 866 mil.

Para Ana Pereira, assessora jurídica da associação, o estigma, o preconceito e a discriminação só trazem aspectos negativos e exclusão social, intensificando ainda mais as vulnerabilidades sociais existentes na sociedade: “Isso faz com que as pessoas tenham medo de procurar por informações, serviços e métodos que reduzam o risco de infecção e de adotar comportamentos mais seguros com receio de que sejam levantadas suspeitas em relação ao seu estado sorológico. A falta de preparação de alguns profissionais da saúde e os preconceitos exalados pela sociedade também afasta a população LGBTQI+ dos serviços de saúde. O estigma que tem se criado em relação ao COVID-19 trará dificuldades semelhantes, por isso é preciso mais empatia e menos discriminação.”, relata Ana.

Para ela atuação do governo, tanto em âmbito federal como estadual tem sido tímida e omissa. As pessoas que vivem com HIV/AIDS já são estigmatizadas e sofrem dificuldades para se manterem no mercado de trabalho formal: “Na nossa Região do Cariri, temos a predominância dessa população no trabalho informal principalmente no comércio e agora em meio à pandemia, essas pessoas não têm tido nenhum meio de garantir sua própria subsistência com dignidade.”, explica Ana. A assessora também informa sobre problemática do acesso ao tratamento. Os transportes públicos não estão em circulação e as consultas foram parcialmente suspensas: “Há atendimentos somente para emergência. As pessoas que vivem com HIV, principalmente as que não possuem um transporte próprio, têm sofrido mais ainda com os impactos causados pela pandemia. Há dificuldade terem acesso a medicação, que é o mínimo, sendo esta situação agravada pela falta de um telefone para contato paciente/serviço.”, afirma a assessora da associação.

Sobre esse aspecto, Ronildo Oliveira também denuncia a ausência de atuação do estado: “Aqui no Ceará, o hospital de referência para o HIV/Aids – São José e o serviço de infectologia do estado, historicamente sucateados, são hoje referências para a Covid-19.  O acesso ao tratamento das pessoas vivendo com HIV se tornou mais precário. E a falta de EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] deixa esses pacientes mais vulneráveis a contaminação.”, declara o coordenador.

Há uma série de determinantes sociais relacionados as doenças sexualmente transmissíveis e populações vulneráveis a infecções, como as comunidades LGBTQI+, público também atendido pela associação e que tem sofrido maior impacto com a pandemia. “Percebemos a intensificação e a sinergia de vulnerabilidades de forma muito mais intensificada neste momento de pandemia, a maioria são negras, pobres e periféricas, semi-analfabetas. Muitas não têm sequer cadastro nas organizações governamentais para algum tipo de benefício, como cadastro único, por exemplo. Sem a possibilidade de trabalhar e sem apoio por meio dos programas sociais e dos governos locais, a população LGBTQI+, que já enfrenta preconceitos e discriminação em outros cenários, está passando por recrudescimento das condições de vulnerabilidade das quais já se encontravam.”. descreve Ana Pereira, referindo-se as travestis e as transexuais atendidas pela organização.

Parceria com a CESE

Afirmando seu compromisso garantia dos direitos humanos e superação das desigualdades enfrentadas pelas pessoas soropositivas e comunidades LGBTQI+, a CESE apoiou as medidas da Associação Caririense de Luta Contra AIDS para continuar garantindo os direitos dessas populações através da: Entrega em domicílio da medicação nas residências das pessoas vivendo com HIV/AIDS; Distribuição cestas básicas de alimentos, bem como material de limpeza e higiene pessoal, máscaras de proteção, álcool em gel a 70% e gás de cozinha para esse público;  e atendimento jurídico e social através de contato por telefone, aplicativo de mensagens e e-mail para tirar dúvidas sobre o CADúnico, os horários de entrega de medicação, auxílio emergencial do governo e locais de atendimento em casos suspeitos do COVID-19.

Ronildo fala sobre a importância do apoio da CESE, na metodologia de dupla participação: “A CESE foi e será uma grande parceira, tanto na capacitação de mobilização de recursos locais, como também com o apoio através do projeto de dupla participação.  Somos gratos/as  pela sensibilidade em apoiar projetos de vida junto as populações mais sofridas em nossas realidades locais.”, explica o coordenador da associação.

E Ana completa sobre o aporte recebido nesse período tão difícil: “Emano a CESE toda gratidão as pessoas que tiveram suas vidas um pouco impactadas e melhoradas através desse elo de confiança e de vontade de ver um mundo mais igualitário e justo. A importância dessa parceria durante esse momento tão difícil de pandemia foi imprescindível para conseguirmos ajudar nossos/as assistidos/as. Foi através da CESE que conseguimos minimizar, na vida de muitas pessoas, os impactos negativos causados pela pandemia do COVID-19. Tanto na entrega de medicações e informações sobre os serviços de saúde, sendo um elo entre o serviço de referência e o paciente vivendo com HIV, bem como, dizendo um SIM ao pedido de ajuda alimentar e outras necessidades básicas.”, agradece Ana que também é mobilizadora de recursos da instituição.

Metodologia Dupla Participação

Durante o período da pandemia, a CESE disponibilizou recursos, através do Programa Virando o Jogo, para apoiar movimentos sociais e organizações parceiras em suas ações emergenciais de enfrentamento aos impactos da SARS-CoV-2, causadora da COVID-19. Por meio desse apoio, a CESE estimula que esses grupos mobilizem metade do recurso necessários para realizar seu projeto e em seguida dobra o valor obtido.

A Associação Caririense de Luta Contra AIDS realizou duas ações de mobilização de recursos, a venda de feijoada delivery e uma campanha de doações on-line, através de plataformas virtuais, para arrecadação de recursos financeiros. A organização arrecadou o montante de R$8.382,00 e a CESE dobrou o valor para R$16.522,00.