Por Carolina Borges Zanetti: Obrigada, pai! – Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

Notícias

Data: 04.03.22

Por Carolina Borges Zanetti: Obrigada, pai!

São 16:22 dia 25/02/2022.

A Ucrânia foi invadida pela Rússia.

Meu pai tá no Hospital. Ele esta morrendo.

Estamos nos revezando, para estar com ele, com amor, com cuidado.

As plantas da minha casa estão crescendo. Estão bonitas.

Eu estou bebendo uma cerveja, mais uma…escrevo, olho para o mar.

O mundo, a natureza, continuam… ele vai, ela vai…a gente vai.

E a gente vai e nem vê direito, nem entende direito…nem se entende…e já foi.

Meu pai, a melhor pessoa que eu conheço. Ele está indo.

Ele quis mudar o mundo.

Ele não mudou o mundo, mas mudou a vida de muitas pessoas.

Mudou acreditando num lugar mais igual. Igual pra pretos, brancos, indígenas, lgbtqis, católicos, protestantes, evangélicos, religiosos de matrizes africanas… ele mudou amando o mundo, apoiando projetos, mudou como uma criança muda seu entorno quando chega…

Ele não mudou o mundo.

A fome tá aí.
Bolsonaro tá aí.
O guri da Elza tá aí.
A guerra tá aí.
A Amazônia tá queimando.

O homem tá querendo sempre mais.
O homem, ele não mudou.

Meu pai tá morrendo.

Ele é meu herói.

A maré tá enchendo,
Ou vazando.
A lua tá enchendo,
Ou minguando.

Meu pai tá indo.

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Ele sempre acreditou…e acredita.

Ele devaneia, está exausto.

Mas ele sabe.
Ele vem do lugar dos que sabem.

Eu queria aprender mais, Desfrutar mais,
Subir com ele as escadas da minha casa.
Ver as nuvens, o por do sol e mostrar as amoras nascendo no vaso.

Meu pai tá morrendo.

Eu o amo como filha…mas é maior. Eu o admiro…ele é o melhor ser humano que conheço.

Que sorte a minha.
Ele é meu pai.

Uma hora eu vou…todos vão…daqui a pouco ele vai. E eu queria mais.

Eu quero acreditar que pode ser. Mas não consigo.

Eu tenho medo. Eu nunca perdi um pai. Ainda mais um pai assim.

O mundo vai.

Eu bebo um gole.
Amargo.

O mundo gira, a guerra mata tanta gente única e amada.

A fome mata.
A pobreza mata.
O feminicídio mata.
O racismo mata.
O capitalismo mata.
O linfoma mata.

Pai. Eu te amo. Eu tenho medo de sofrer.
Mas tenho mais medo de você sofrer.
Logo você…a melhor pessoa que muitos conhecem.

Que sorte a minha ter você.
Que azar essa doença. Porquê?

Fica pai!

E se não for ficar, vai em paz…

Quem sabe é algo superior querendo te levar pra não ver a tristeza que estamos construindo no mundo.

Você que sempre acreditou, espero que esteja certo.

Espero que seja mesmo azar… que o mundo um dia seja como você idealizou.

Espero que você não esteja indo tão cedo para ser poupado.
E que aqui seja um lugar melhor para seus netos e para os netos de todos.

Você não estará aqui. Mas estará em paz.

Obrigada, pai.

Carolina Borges Zanetti