Troca de Saberes Amazônicos: dos impactos dos fundamentalismos nas comunidades à proteção socioambiental – Ecumenismo | Movimentos Sociais | Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

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Data: 18.11.22

Troca de Saberes Amazônicos: dos impactos dos fundamentalismos nas comunidades à proteção socioambiental

O espaço “Troca de Saberes Amazônicos” foi um marco sobre o que temos visto no campo político nos anos recentes, mas principalmente sobre o que não podemos perder de vista, enquanto movimentos sociais formados por povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações baseadas na fé. O momento encerrou a programação do encontro “Amazônia de Todas as Lutas”, na quinta-feira (10), em Manaus.

Foram três mesas dedicadas à discussão sobre o quadro político que se instala a partir de agora, após o resultado das eleições, sobre os fundamentalismos religiosos e políticos e seus impactos da vida das populações originárias e tradicionais da Amazônia brasileira, a importância de fortalecer os trabalhos em rede e também os de base junto às comunidades e a agroecologia.

A conjuntura atual, após os últimos quatro anos, ainda é de sofrimento dos impactos dos desmontes de políticas públicas, mas também da atmosfera política criada no país. O alinhamento entre igrejas e figuras ultraconservadoras – em especial de cunho evangélico – e o governo federal fez com que o fundamentalismo religioso ganhasse novos contornos políticos e, assim, fosse um fator extremamente marcante desse período.

Ao falar sobre os impactos dos fundamentalismos nas comunidades, Bianca Daébs, assessora para Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, destacou que eles costumam ter dois problemas básicos. “Legitimam a violência e anulam a nossa capacidade crítica. Nos impede de olhar e questionar: ‘que Deus é esse que diz isso?’ ‘Você fala em nome de quem?’. Quando se trata do sagrado, mexe o que é mais íntimo da gente”, explica.

“Quando você diz ‘Deus acima de tudo’, não está se referindo a qualquer Deus. É o que eu me apropriei, o fundamentalista. Não o da resistência, que vai todos os dias para o enfrentamento cotidiano. É um Deus colonizador, macho, branco, violador. Para as pessoas comuns, fazer essa distinção não é fácil. Porque a gente tá lidando pro que é sagrado”, complementa a assessora.

Iuri Lima, da Rede Amazonizar, trouxe relatos colhidos em uma atividade de combate ao fundamentalismo religioso, realizada no interior do Amazonas por sua rede. “Ouvimos quilombolas que sofreram discriminação, mesmo em comunidades católicas. Roraima tem 95 terreiros catalogados, mas muitos sofreram ataques este ano. Um pai de santo foi assassinado brutalmente lá. Como o Amazonas tem a maior quantidade de etnias indígenas, mas não tem um material escolar de combate à intolerância religiosa?”

Adriana Ramos, assessora Política do Instituto Socioambiental, pontua que, para o governo eleito, assumir após esses desmontes será um desafio. “Primeiro é reconstruir as estruturas para que elas voltem a cumprir seu papel. Milhares de medidas foram extintas – de conselhos, políticas, programas. Já era difícil as políticas de Brasília chegarem no território, imagine quando os mecanismos foram todos desmontados.”

 

Desafios e perspectivas

Ao todo, três mesas marcaram o espaço “Troca de Saberes Amazônicos”. Além da discussão sobre conjuntura, também foram foco dos debates o trabalho em rede, o fortalecimento dos povos e comunidades tradicionais, a gestão ambiental e a proteção da sociobiodiversidade.

Muito por conta de suas características geográficas e ambientais – o tamanho, a proximidade com as fronteiras de Colômbia e Peru, a presença de peixes alvo da pesca ilegal – o Vale do Javari vem sendo cada vez mais assediado por grupos criminosos. Manoel Chorimpa, presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário do Povo Marubo do Alto Rio Curuçá (Asdec), falou sobre a presença de facções no interior da TI.

“Na fronteira, temos talvez o maior produtor de cocaína do mundo e o pior pesadelo é que isso já está atraindo nossas juventudes. Quando há uma invasão, não é simplesmente um pescador querendo sobreviver. Eles pegam o tracajá, pirarucu, carne e exportam. Tudo isso é contrabandeado e estimula a invasão. Eu sei que é difícil, mas precisamos de muitos aliados pra levarmos uma perspectiva de vida melhor pro nosso povo.”

Fábio Pacheco, da Articulação Nacional da Agroecologia (ANA Amazônia), falou sobre a militarização de órgãos públicos ter impacto distinto na Amazônia. “Isso fez com que a Amazônia entrasse num novo ciclo de violência. Esse aumento de CACs, munições, clubes de tiro legais e ilegais: é a formação de um exército que está a serviço do agronegócio, da mineração, do capital que quer usurpar a Amazônia.”

“A gente tem o desafio agora de pautar o governo – com a fome, a recomposição dos órgãos, dos marcos legais. Mas tem também de construir um novo modelo de governança, pra que a gente não fique mais à mercê do que nos é imposto, enquanto forma de trabalhar a gestão dos territórios. Temos que discutir como a gente quer que sejam gestados os territórios pelos seus povos”, completa.

O fortalecimento das comunidades que vivem nos territórios será fundamental para a retomada do país, sobretudo através da formação de amplas redes. Apesar de integrar uma regional que ainda está em processo de construção, dona Maria Helena dos Santos Castro, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – Amazonas (Conaq-AM), pontua que está mais disposta do que nunca para lutar.

“Falar sobre rede é uma fala de união e comunicação. Quem tem medo de morrer, não luta por ninguém. E essa mulher aqui não se curva. Se eu estou aqui, é porque outros me fizeram alguém para representar ao lado delas. Nós temos que corresponder à confiança que esse povo colocou na gente”, afirma a liderança

Também participaram das mesas, Maria Helena Gavião, da União das Mulheres Indígenas da Amazônia (Umiab); Fabíola Pinheiro, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA); e Dione Torquato, do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

 

Gestão sob o olhar dos povos

 

  

Ao final do espaço “Troca de Saberes Amazônicos”, formaram-se grupos para discutir propostas para esses campos. Implantação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental em todos os territórios, alianças entre fundos comunitários com troca de experiências e valorização dos saberes tradicionais foram algumas das principais alternativas levantadas pelos grupos.

 

O vice-coordenador da Coiab, Alcebias Constantino, falou sobre a importância da participação das lideranças presentes no evento. “Nós somos resistência há 522 anos. Estamos aqui hoje projetando o futuro. É com esse olhar de projeção, companheirismo e articulação que a gente vem fazer essas reflexões aqui hoje.” afirmou.

 

 

A diretora executiva da CESE Sônia Mota pontua que esse encontro é extremamente importante para a organização. “A CESE sempre atuou na Amazônia, através do apoio a pequenos projetos. Essas mesas com o olhar para a região são para que a gente possa se aproximar cada vez mais. Dialogar, escutar, para aprender a fazer com e a partir da Amazônia, dos seus povos e suas tradições. É por isso que estamos aqui”.

Realizado entre os dias 8 e 10 de novembro por CESE, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e Fundo Podáali, o encontro “Amazônia de Todas as Lutas: Direitos e Espiritualidades para o Bem Viver” contou com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS) e da Fundação Ford.