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Data: 29.10.20

CESE realiza roda de diálogo e entrevista com Magali Cunha para discutir sobre fundamentalismos e ameaça aos direitos humanos

 

No 29/10, a diretoria institucional, a equipe executiva da CESE e organizações parceiras receberam a jornalista e doutora em Ciências em Comunicação, Magali Cunha para debater sobre os “Fundamentalismos na América Latina e o ataque aos Direitos Humanos”. Nesta discussão, Magali alerta como essa ideologia profundamente conservadora é um projeto que não só ameaça a vida democrática, mas também cerceia os direitos fundamentais das minorias.

Magali Cunha é autora da recente publicação lançada neste mês de outubro: “Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação”. E para jogar luz no debate, a Comunicação da CESE realizou uma entrevista especial com ela.

O crescimento do fundamentalismo é uma aliança da matriz religiosa com a política conservadora de cerceamento de direitos. Entrevista especial com Magali Cunha.

 Pesquisadora e autora do livro “Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação” aborda o avanço dos fundamentalismos na Argentina, Brasil, Colômbia e Peru.

Em um e-book de 62 ilustradas páginas, a jornalista e doutora em Ciências da Comunicação, Magali Cunha, narra sobre o crescimento de um ideário fundamentalista religioso, sua interferência na vida cotidiana e sua força política organizada em países da América Latina.

O livro “Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação é uma iniciativa do Fórum Ecumênico ACT Aliança Sulamericano (FESUR). O projeto nasceu da preocupação de igrejas e organizações baseadas na fé (OBFs), articuladas por meio da ACT Aliança, com essas mutações observadas no continente, avaliadas como reflexos de diferentes expressões de fundamentalismo.”, conta a autora na introdução da obra.

A publicação “Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação” foi lançada no dia 14/10, no site de Koinonia Presença Ecumênica e Serviços, e está disponível gratuitamente em português, espanhol e inglês:  Clique aqui para acessar

A pesquisa estrutura-se na observação dos fundamentalismos nas duas últimas décadas e traz uma abordagem com diversas metodologias: entrevistas com especialistas, grupos focais, diálogos grupais com militantes e levantamento bibliográfico. Em conversa com a CESE, Magali Cunha explica o padrão dessa visão de mundo nas sociedades brasileira, argentina, colombiana e peruana, e como esse fenômeno atua na fragilização da democracia e na violação dos direitos.

 

 

Magali do Nascimento Cunha é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo – USP, mestra em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO e graduada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense – UFF. É colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas e coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM. Magali Cunha também é autora de artigos jornalísticos da Revista Carta Capital. Entre as obras publicadas estão Mídia, Religião e Cultura: percepções e tendências em perspectiva global (Curitiba: Prismas, 2016) e Religião no noticiário: marcas de um imaginário exclusivista no jornalismo brasileiro (E-Compós, Brasília, v. 19, p. 1-21, 2016).

Confira a entrevista na íntegra:

CESE: Quais os pontos convergentes do fundamentalismo nos países que você pesquisou? O que mais te chamou atenção?

Magali Cunha: Os pontos convergentes dos países pesquisados que foram Brasil, Argentina, Peru e Colômbia, encontrei seis elementos comuns:

(1)A Intensa Expansão Reacionária: uma reação a conquistas no campo das políticas públicas, especialmente dos direitos em relação as mulheres, população LGBTI, comunidades tradicionais e aos trabalhadores. Então, nós podemos perceber essa convergência de reação relacionada a pauta de direitos que encontrou avanços. Não é a situação que gostaríamos de ver, mas houve avanços desde os anos 2000, desde o fim das Ditaduras no continente e a redemocratização que os países viveram;

(2) Temos Gênero como elemento comum a pauta dos direitos sexuais e reprodutivos. Essa questão é uma reação bastante comum, das mais intensas e mais fortes;

(3) A Matriz Religiosa presente nessas reações baseadas em fundamentos religiosos, mesmo da parte de quem não tem vínculo religioso que se apropria disso;

(4) As Pautas Pró-família que também estão muito presentes e que são muito vinculadas as propostas de fechamento no campo das políticas públicas em relação a economia. Então, essa redução das políticas públicas, do cuidado do Estado com saúde, educação, emprego e aposentadoria tem muita relação com essas pautas, para que haja uma defesa do cuidado das pessoas, e que isso seja feito dentro de casa, com a família. Isso tira do Estado esse papel de prover direitos;

(5) O Modelo Neoliberal refeito, reordenado. A pandemia mostra o fracasso desse modelo em várias frentes. Mas, ele se recompõe dentro das suas fragilidades para se sustentar e para manter a proposta de retirada de direitos. Tem a ideologia do empreendedorismo, o avanço das mineradoras sobre terras indígenas e quilombolas, e outros;

(6) Outro elemento comum encontrado é Crise da Pandemia e a demanda do papel do Estado mais ativo no cuidado com sua população.

2 – Como esse fenômeno, que tem uma perspectiva extremamente conservadora, atinge a vida das mulheres?

Magali Cunha: Esse fenômeno, que tem essa perspectiva extremamente conservadora, atinge a vida das mulheres muito especialmente em dois elementos. Em primeiro lugar essa reação. E também a busca de retrocesso em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, direitos das mulheres que foram alcançados a duras penas no período da redemocratização.  No caso brasileiro, toda legislação de favorecimento de direitos à saúde, saúde reprodutiva, de acompanhamento dos hospitais que foram especificamente desenhados para atendê-las no serviço público. A questão do estupro, sua classificação como crime hediondo e as consequências disso como uma gravidez, a mulher ganhou o direito de não ter essa criança, de não ter essa gestação desenvolvida por conta de ter sido um processo de violência, de ter o direito de abortar e fazer isso pelo SUS. Outras conquistas como, a Lei Maria da Penha em 2006 que puni e tipifica em crimes. E mais tarde o Crime de Feminicídio reconhecido também na legislação. O que nós temos é uma reação a esses avanços e com Projetos de Lei, por conta da bancada religiosa católica e evangélica, para que se retroceda esses direitos e para que sejam barrados.

“Então, atinge as mulheres muito especialmente por conta dessa pauta fundamentalista que defende o lugar da mulher na submissão aos homens e dentro de casa, cuidando da família e de filhos/as, desenvolvendo casamentos. Então é um retrocesso muito forte que nós podemos perceber com o avanço fundamentalista.”

Isso ocorre principalmente agora com o governo Bolsonaro e o Ministério chamado “Mulher, Família e Direitos Humanos” que promove esses retrocessos com o corte de financiamento a políticas públicas de saúde, com cortes de direitos relacionados a reprodução, principalmente aqueles relacionados ao aborto.

Então, atinge as mulheres muito especialmente por conta dessa pauta fundamentalista que defende o lugar da mulher na submissão aos homens e dentro de casa, cuidando da família e de filhos/as, desenvolvendo casamentos. Então é um retrocesso muito forte que nós podemos perceber com o avanço fundamentalista.

CESE: Muitos/as analistas avaliam que o crescimento do fundamentalismo ocorre em função do avanço das pautas progressistas, como o feminismo e os direitos humanos. Você concorda com essa análise?

Magali Cunha: Sim, o avanço do fundamentalismo se dá por conta das conquistas das pautas progressistas nos anos 90 e 2000. E no Brasil, muito fundamentalmente nos anos 2000, com os governos Lula e Dilma que trouxeram uma série de destaques tanto para questão da mulher, como para da negritude, direitos da população negra, direitos das populações tradicionais indígenas e afrodescendentes, que são na verdade o cumprimento daquilo que já tinha sido desenhado na Constituição Cidadã, depois da Ditadura Militar.

Essas pautas tiveram algum avanço durante o processo de redemocratização, mas no tempo do governo Sarney, de Itamar Franco – substituto de Collor, esses movimentos eram lentos, ganharam alguma força na gestão da Social Democracia do PSDB, mas foram nas administrações do PT que houve esse progresso fundamental.

“O crescimento do fundamentalismo é uma aliança dessa matriz religiosa com a política conservadora de cerceamento de direitos, que se dá nesse viés fundamentalista político religioso”

E o que nós percebermos é uma espécie de freio nessas pautas progressistas, com o impeachment – na verdade um golpe no governo democrático de Dilma Rousseff. O objetivo era impedir a continuidade desse projeto político que os governantes de esquerda estavam desenvolvendo, com certa abertura já com o PSDB, mas com projetos de inclusão social nas mais variadas frentes. Como também na pauta da educação, por exemplo, no direito de trabalhadores/as, e outros. O crescimento do fundamentalismo é uma aliança dessa matriz religiosa com a política conservadora de cerceamento de direitos, que se dá nesse viés fundamentalista político religioso.

CESE: No capítulo “Possíveis estratégias de resposta” da publicação, você traz indicativos de enfrentamento ao fundamentalismo a necessidade de autocrítica para vários grupos e segmentos sociais. Você acha que as Igrejas do campo progressista estão prontos para esta autocrítica?

Magali Cunha: Em termos da estratégia de resposta e a necessidade da autocrítica, as Igrejas do campo progressistas ainda não estão abertas a essa autocrítica. Elas precisam refazer essa caminhada, refazer essa trajetória e isso fica muito claro na pesquisa, na audição que foi feita de especialistas, de ativistas dos direitos humanos, inclusive de pessoas das Igrejas que deixam muito claro a necessidade de uma revisão de caminhos.

E especialmente olhar para os anos 80, que foi aquele momento de superação das Ditaduras aqui no Brasil, quando a repressão militar chegou ao fim e houve toda recomposição do projeto democrático. O que os anos 80 representaram naquele reestabelecimento, naquela formação de consciências, na leitura crítica do papel das Igrejas, essa memória precisa ser olhada para se refazer o percurso. Não copiando o que foi feito naquele momento, óbvio que é outro contexto, outra realidade. Mas, para inspirar, que esse campo progressista possa, então, enfrentar os fundamentalismos assim foi enfrentou as Ditaduras no passado.

É preciso reformar essa formação da consciência crítica, olhar para dentro de si, identificar as lacunas que existem e os fundamentalismos que estão presentes dentro das próprias Igrejas. Acho que essa é a parte mais difícil, mas que demanda uma ação imediata em termos de reformulação do processo educativo e de comunicação, de alianças com setores da sociedade brasileira que caminham na mesma direção. Isso fica destacado nas possíveis estratégias de respostas que nós levantamos.