Movimentos de mulheres do Nordeste costuram reflexões e tecem a resistência em primeiro encontro de 2024


Os movimentos e organizações de mulheres são um tecido diverso! Como uma colcha de retalhos – formada por fios que atravessam histórias, traçam caminhos e constroem uma pluralidade. Através da metáfora da arte de costurar, organizações de mulheres do Nordeste conectadas a Comunidade de Prática deram início à primeira roda de conversa do ano, iniciativa realizada pela CESE, no âmbito do Programa Doar para Transformar.

Tecido de forma virtual, o encontro teve como objetivo discutir as ações previstas nos eixos de atuação do programa, escutar as sugestões e fazer diálogo com os grupos sobre as atividades relacionadas a 2024.

Pensar essa iniciativa requer um olhar para o processo político atual do Brasil, uma análise dos enfrentamentos que atingem os corpos e as vidas das mulheres, como também as conquistas e desafios que estão por vir. Entre pespontos desajustados e
retalhos descosturados, as mulheres compartilharam suas vivências: Recursos limitados para execução das atividades; Aumento do feminicídio, transfeminicídio e lesbocídio; Assassinatos de Defensores/as de Direitos Humanos; Necessidade de
fortalecimento das redes de enfrentamento à violência; Participação limitada por conta da relação entre trabalho e militância, foram alguns dos nós frouxos considerados pelas companheiras.

Apesar do contexto cheio de remendos e dificuldades, as mulheres trouxeram também como se articulam com linhas coloridas e se conectam com tecidos diversos. As estratégias de luta como fortalecimento do trabalho em rede, formação e diálogo; a força coletiva na mobilização nas ruas e nas redes; o protagonismo das mulheres nas conquistas de direitos, reagrupamento de lideranças e nas resistências dos movimentos foram exemplos dos nós fortes dessa grande costura. As ações do “Março de Lutas”, incluindo o Dia Internacional das Mulheres foram os principais destaques, momento em que todas organizações conclamaram a sociedade a tomar as ruas em defesa dos direitos e da democracia.

Ao longo do encontro, as participantes puderam trocar experiências a partir da sua atuação, debater conteúdos e demandas que consideram importantes, e realizar explanação dialogada através das metodologias e dinâmicas propostas pela CESE.
Raimunda Oliveira, integrante do Coletivo Mulheres, Políticas Públicas e Sociedade (MUPPS), elogiou o “ato de costurar” como fio condutor de todo o processo: “Foi muito interessante a metodologia utilizada. Saio da reunião iniciando uma “colcha de chita”. Além disso, o encontro foi de muita vibração com tantas mulheres. O Coletivo MUPPS
tem aprendido muito com essa Comunidade de Prática!”, afirma. 

Por meio da participação ativa, a Comunidade de Prática acumula reflexões e aprendizados. Desde de 2021, o foco do trabalho tem sido o fortalecimento entre organizações do movimento de mulheres. Rodas de conversas, debates, formação,
apoio a projetos, sistematização de experiências e diversas outras iniciativas têm impulsionado ações de incidência desse grupo. Para continuar a tecer as peças do coletivo, todos os anos as representantes definem como essa articulação pode ser potencializada, com espaço aberto para sugestões, dúvidas, críticas e incorporação de novas entidades.

Esse ano, a partir dos processos de escuta, novas organizações passam a integrar a comunidade, ampliando a atuação e a diversidade que já é elemento marcante do grupo. Além das mulheres com deficiência, negras, ativistas, trabalhadoras domésticas, indígenas, camponesas, pescadoras, jovens, comunicadoras, evangélicas, de terreiro, e LGBTQIA+, estão sendo envolvidas também mulheres encarceradas e mais segmento de indígenas, feministas cristãs, profissionais do sexo
e lésbicas.

Para 2024 outros fios são tecidos para construção de novos caminhos. A Chamada de Projetos na modalidade Dupla Participação foi lançada durante o encontro como uma forma de estimular o recebimento de propostas para apoio. Além disso, foram apresentadas ações previstas para o ano entre cursos, oficinas, rodas de conversas, encontros, “feira de intercâmbios”, “sessão de atualizações”, tanto de forma presencial como virtual. “Esses momentos são muito ricos para a nossa caminhada de luta e fortalecimento dos agrupamentos”, declara Michelle Ferreira, do Fórum de Mulheres de Pernambuco.

 A atividade contou com a participação de 18 organizações e 25 mulheres combativas, criativas, que seguem costurando seus territórios, fortalecendo vínculos e lutas. Mais que um somatório de lutas, a Comunidade de Prática, representa a conexão de
sujeitos políticos coletivos, diversos e em movimento.

Sobre o Programa Doar para Transformar

A CESE iniciou uma caminhada de cinco anos com Programa Doar para Transformar (Giving for Change), apoiado pela agência da cooperação holandesa Wilde Ganzen, através do Ministério das Relações Exteriores. O programa envolve internacionalmente oito países do sul global, Brasil, Burkina Faso, Etiópia, Gana, Quênia, Moçambique, Uganda e Palestina.

A iniciativa tem entre seus objetivos contribuir para a adoção de práticas mais equitativas no sistema internacional de desenvolvimento, inclusive a partir das ideias de mobilização de recursos nacionais e filantropia comunitária.

Na CESE, o foco do trabalho será o fortalecimento e aprendizado coletivo entre organizações do movimento de mulheres do Nordeste. O programa tem a duração de cinco anos (2021 a 2025) e conta com uma série de atividades: Apoio a projetos; Formação nas áreas de Incidência, Comunicação e Mobilização de Recursos; Encontros temáticos sobre Sustentabilidade, Comunicação Estratégica, Incidência Política e Jurídica; Diálogos Estratégicos com Academia e os Poderes Públicos; Planejamento, Monitoramento e Avaliação, e Sistematização.