Apoio aos povos indígenas afetados pelos incêndios na Amazônia – Ecumenismo | Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

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Data: 16.11.19

Apoio aos povos indígenas afetados pelos incêndios na Amazônia

Rondônia foi o último destino da ajuda humanitária emergencial do Fórum Ecumênico ACT-Brasil, por meio da CESE, a povos indígenas da Amazônia afetados pelos incêndios iniciados em agosto deste ano e que ainda estão ocorrendo na região. Com o apoio de ACT Alliance, foram beneficiadas as terras indígenas Uru Eu Wau Wau, em Rondônia; Tenharim Marmelo, no Amazonas; o Centro Huwã Karu Yuxibu, dos Huni Kuin, no Acre; os Apurinã de Valparaíso, no Amazonas (Boca do Acre) e seis brigadas indígenas do Maranhão (Caru, Arariboia Jucaraí, Arariboia Zutiua, Gavião, Krikati e Canela).

O apoio emergencial forneceu equipamentos para brigadas indígenas de combate e prevenção ao fogo para um total de 139 brigadistas, sendo 29 Tenharim, 20 Uru Eu Wau Wau e 15 de cada uma das seis brigadas do Maranhão; combustível e frete de carro para chegar às áreas afetadas pelo fogo e para fiscalizar as regiões vulneráveis; alimentação e ajuda de custo para brigadistas e para famílias que perderam suas casas e seus roçados.

Em agosto de 2019 o foco de queimadas na Amazônia brasileira atingiu o dobro do que ocorre nesta época do ano. As situações de maior gravidade foram reportadas pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), parceira da CESE. Uma grande preocupação continua sendo com as áreas onde há grupos indígenas isolados, como na Terra Indígena Uru Eu Wau Wau (Rondônia), onde há registro de três grupos isolados, e na Terra Indígena Arariboia (Maranhão), onde foi covardemente assassinado um jovem Guajajara Guardião da Floresta e onde os focos de incêndio voltaram a eclodir.

Para efetivar o recebimento do apoio humanitário emergencial pelas populações afetadas, a CESE contou com seus parceiros na região, especialmente a COIAB, o IEB, o COMIN, o CIMI e a COAPIMA (Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão).

No caso dos Jupaú, como se autodenominam os chamados Uru Eu Wau Wau, aproximadamente 50 famílias, vivendo em 6 aldeias, foram diretamente afetadas em suas áreas de caça e coleta, com impacto em sua segurança alimentar. Trata-se de um povo cujo contato foi feito há menos de quarto décadas, em 1981. A abertura da Transamazônica trouxe os conflitos, na década de 70 e o contato, iniciado em 1981, continuou trazendo devastação e morte para esse povo da família Tupi Kawahib. Hoje, apesar de terem sua terra demarcada, sofrem constantes invasões e têm uma parte do seu território já ilegalmente ocupada por fazendas. A grilagem de terra continua sendo a forma predominante de avanço colonizador neste país. A chegada da ajuda para os Jupaú significou um reforço em sua permanente resistência, trazendo, mais que tudo, esperança. Nas alianças, nas pessoas e coletivos que compreendem o direito dos Povos Indígenas de existirem como são e de protegerem a terra, nossa mãe.

 

A proteção do paraíso 

A mulher Uru Eu Wau Wau sorria o tempo todo, leve como uma borboleta. Trocava de camiseta e de colares a todo momento, exibindo seu precário guarda-roupa. E ria, alegre, jeito de criança naquela mulher madura, já avó. Um belo sorriso sem dentes e sem malícia. Ela me abraçava muito e falava palavras em sua língua da família Tupi Kawahib e eu, desentendida, ria e abraçava de volta.

 Enquanto isso, com a ajuda de jovens tradutores, homens e mulheres daquele povo que até 1981 vivia sem conhecer nossa sociedade, contavam memórias terríveis do tempo do contato e do grande trauma que se abateu sobre os Jupaú, como se chamam a si mesmos.

 Hoje, com as fazendas invadindo, as queimadas criminosas destruindo milhares de hectares de floresta, com a proximidade dos invasores, a escassos 4 km da aldeia, falam de seu sono sobressaltado pelo barulho de tiros e de motores rondando. Falam isso com o rosto pintado de jenipapo e com o arco e as belas flechas nas mãos.

 Saem para nos mostrar as picadas de invasão e no caminho o paraíso se descortina: o rio límpido, cardumes passando sob o barco, jacarés mergulhando depois de nos encarar por rápidos segundos, mutuns, jacus, maguaris, ciganas e muitos outros pássaros animando a vida das altas copas nas margens. Sobre um tronco caído em cima do rio, uma irara caminha, elegante e sem pressa. Ao perceber o barco, volta silenciosamente e some no mato. Mais adiante, uma ariranha se assusta com o barulho do motor de popa e mergulha no rio; pouco depois e muitos metros adiante, a água espadanada indica a pescaria certeira da ariranha.

 No meio desse paraíso e na calma das vozes mansas dos Jupaú, é quase monstruoso pensar que a tão poucos quilômetros o agronegócio avança, grilando a terra, destruindo tudo e implantando soja, gado e morte. Os Jupaú nos mostram as picadas abertas pelos invasores e explicam como funciona o processo: grupos de 30, 40 homens abrem a picada na floresta e demarcam lotes. Em seguida, derrubam as árvores; esperam por volta de 90 dias e tocam fogo no mato derrubado, que já secou. Depois jogam semente de capim, a chuva cai e o pasto está criado. No meio tempo, as cercas vão dando o indefectível ar de propriedade sobre a terra indígena.

 

Com seus arcos e flechas, seus rituais, sua alegria de viver e sua intimidade com a floresta, os Uru Eu Wau Wau enfrentam e expulsam esses invasores, que voltam novamente na próxima temporada de grilagem.

 Um agente ambiental indígena fala emocionado sobre as frutas da mata, que servem para as pessoas e para os bichos se alimentarem; e uma mulher, também agente ambiental, explica que sem floresta eles teriam que comprar carne, que é caro, mas que na mata é de graça – é só caçar, moquear e comer. De graça se não se contar o trabalho incrível do caçador, que já se destaca numa das trilhas, quando uma anta cruza o caminho e a flecha, mais rápida que o pensamento, voa. No rio, a pescaria é alegre e silenciosa, as flechas certeiras rompendo a água e atingindo o peixe, alimento diário da aldeia.

 Andando na mata com esse povo, viajando no rio com eles, a gente percebe nossa fragilidade, ignorância e cegueira. Onde eles enxergam, coletam e caçam, nós provavelmente morreríamos de fome. Ali, na noite alta da floresta (como diz o cantor), é deles a sabedoria, o conhecimento, o poder. 

 A eterna luta de David contra Golias, tão desigual; a eterna luta dos cavaleiros Jedi, da luz contra as trevas; a eterna luta nas mentes e corações brasileiros entre a justiça, a beleza, a harmonia, o respeito, e a cobiça, a destruição, a pretensão de tudo saber, a arrogância de tudo poder, a cegueira devastadora. 

 E se nos propuséssemos a evoluir para índio? Por que a flecha tem que ir sempre na direção de deixar de ser índio, se nem a flecha do tempo é irreversível, como já provou a física quântica? Por que nossas escolhas, como povo brasileiro, excluem e ocultam nossas raízes estupradas, nossa grande matriz tupi? Nunca fomos europeus, nunca seremos norte-americanos, nunca seremos nada além do que nossa história traumática e colonizada nos deixou. É hora da grande terapia, de olhar para os traumas, de estremecer com as violências e de firmar o pé na terra verdadeira. Mais floresta e menos Miami, mais índio e menos complexo de vira-lata.

(Mara Vanessa)