Fundos Comunitários e Autônomos como estratégia de sustentabilidade: um debate entre organizações de mulheres do Nordeste – Movimentos Sociais | Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

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Data: 27.05.22

Fundos Comunitários e Autônomos como estratégia de sustentabilidade: um debate entre organizações de mulheres do Nordeste

Com o objetivo de afirmar e defender direitos, os movimentos de mulheres do Nordeste vêm ganhado força, apesar do contexto social e político tão desafiador. Articuladas em coletivos e organizações, são as mulheres que estão na linha de frente, enfrentando as desigualdades estruturantes e contribuindo para a defesa da democracia. Atuando em diferentes territórios, e combinando conhecimentos tradicionais com novos saberes, buscam caminhos diversos para garantir sua autonomia, inclusive a gestão direta e compartilhamento de recursos com grupos locais através de fundos comunitários ou autônomos.

Dando continuidade às ações de fortalecimento das organizações envolvidas no Programa Doar para Transformar, foi realizada a Roda Virtual de Conversa sobre Fundos Comunitários / Autônomos como estratégia de sustentabilidade das organizações. O encontro contou com a participação de 26 mulheres de seis estados do Nordeste, entre elas, mulheres negras, ativistas, indígenas, camponesas, pescadoras, cegas e com baixa visão.

A atividade foi co-promovida pela CESE e Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu/Fundo Babaçu e teve como objetivos: compartilhar experiências de fundos em diferentes formatos, geridos coletivamente por mulheres nordestinas, assim como contribuir na reflexão sobre as potencialidades e desafios desse instrumento para a sustentabilidade das organizações.

Foram apresentadas experiências diversas na área de gestão de fundos, com a contribuição de Analba Brazão, da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB)/SOS Corpo; Maria Nilce, da associação ALVA/ Fundo Rotativo Solidário; Cristina Gusmão, do Fundo Nordeste Solidário; Sandra Regina Monteiro, Klesia Maria da Conceição e Marinalda Rodrigues da Silva do MIQCB/Fundo Babaçu.

As expositoras abordaram em que contexto surgiram os fundos, os esforços de comunicação para alcançar grupos locais, as formas de apoio aos grupos na fase de elaboração das propostas e os processos de tomada de decisão coletiva acerca dos apoios a serem concedidos. Além disso, o conhecimento profundo acerca das dinâmicas locais e a confiança estabelecida entre as organizações gestoras e os grupos apoiados foram fatores apontados como um diferencial destas iniciativas.

Para Marinalda Rodrigues, os fundos não só são relevantes instrumentos para fazer o apoio chegar às organizações locais, mas também uma modalidade de parceria ativa, no sentido de conhecer mais de perto a realidade. A quebradeira de coco babaçu, relatou sobre o lançamento do edital do Fundo Babaçu no início da pandemia e as dificuldades de execução dos projetos por conta das restrições de saúde: “Mantivemos as ações estratégicas e identificamos também outras necessidades para viabilizar o apoio. Houve remanejamento de recursos e adaptações das atividades”, afirmou a integrante do MIQCB. A proximidade com os grupos foi fundamental para que esses ajustes de rota fossem feitos.

Já Michele Ferreira, do Fórum de Mulheres de Pernambuco, explica que essa discussão impulsiona o fortalecimento organizativo das mulheres e reposiciona as organizações frente à cooperação internacional. Para ela, as doações através dos fundos autônomos chegam com maior efetividade. Ela exemplifica com a experiência do Fórum: “Tivemos um projeto apoiado pela Articulação de Mulheres Brasileiras, que nos permitiu trazer mais mulheres no âmbito local e estadual e ampliar nossas ações. O fundo possibilitou uma relação mais próxima com AMB, que por sua vez, pode com suas parcerias locais construir uma agenda de intervenção com a cooperação.”, relata Michele ao ilustrar a eficiência e participação nas relações de parceria.

Inserção, resistência, luta, coragem, criatividade…são muitos os ingredientes usados por cada uma delas. Mulheres diversas, experiências também diversas, mas todas movidas pelo desejo de autonomia política e econômica para as companheiras e suas organizações.

“Uma diversidade de experiências, uma diferente da outra, mas todas com o mesmo sentido de fortalecimento da luta. Eu trouxe um exemplo mais amplo de um movimento nacional, mas foi interessante escutar também as experiências mais locais.  Já estou até com algumas ideias para o nosso próximo edital, a partir do que ouvi nesta roda.”, afirmou Analba Brazão.

A Roda de Conversa sobre Fundos Comunitários / Autônomos faz parte das atividades do Doar para Transformar, programa que tem como objetivo fortalecer as organizações locais nas suas capacidades de mobilizar recursos, de fazer incidência política e também de interferir nos debates sobre cooperação internacional.