Para enfrentar Covid-19, CESE apoia articulação entre campo e cidade no combate à fome – Movimentos Sociais | Notícias | Cese | Coordenadoria Ecumênica de Serviço

Movimentos Sociais Notícias

Data: 29.06.21

Para enfrentar Covid-19, CESE apoia articulação entre campo e cidade no combate à fome

Com mais de 18,4 milhões de casos de Covid-19 registrados e 514.000 mortes, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de casos pela doença. De um lado, a disseminação do vírus entre as comunidades tradicionais e os bloqueios na circulação de renda das famílias dependentes da agricultura agudizam as vulnerabilidades socioeconômicas de trabalhadores/as do campo. Do outro, a pandemia também acentuou a fome nos grandes centros urbanos, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), 43 milhões de brasileiros/as estão sem situação de insegurança alimentar.

Diante dessa conjuntura, a RedeMoinho, uma cooperativa de serviços na área do Comércio Justo e Economia Solidária, se mantém mobilizada com outras organizações e movimentos para o enfrentamento do coronavírus e o combate a fome no Estado da Bahia. Por meio do Programa de Pequenos Projetos, a CESE apoiou a “Feira Agroecológica do MAB: Agroecologia e economia solidária religando e reconstruindo laços campo-cidade” com o objetivo de garantir renda às famílias agricultoras vulneráveis, e de doar alimentos agroecológicos para catadores/as de materiais recicláveis.

O projeto acontece em um contexto de desafios para a população do campo, sobretudo produtores/as da agricultura familiar. Com as medidas de isolamento social, restrições de atividades comerciais, suspensão de feiras livres e fechamento de escolas, o fluxo de consumo dos produtos agrícolas foram reduzidos consideravelmente. Com dificuldades de escoamento da produção, famílias inteiras têm suas vidas afetadas em virtude da falta de renda e ausência de políticas públicas.

Para Arlene Guimarães, coordenadora da RedeMoinho, os/as agricultores familiares já passavam por retrocessos – a partir do Governo Temer (2016), com redução e extinção de programas de incentivo a agricultura familiar. Agora, têm seus processos de perdas agravados com a pandemia: “Não há políticas públicas que facilitem o escoamento da produção. O apoio vai desde conservação das estradas que ligam as roças para as sedes municipais, até a criação de uma política de abastecimento alimentar. Não existem pontos de comercialização da produção que acolham pequenos/as agricultores. Os espaços rurais, no Nordeste e, sobretudo, na Bahia, continuam sendo espaços de exclusão.”, afirma Arlene.

A pandemia da Covid19 desestruturou dois espaços importantes de comercialização solidária e de agroecologia da RedeMoinho, em Salvador: “A Feira Agroecológica do Museu de Arte da Bahia – MAB” e a “Feira Agroecológica da Universidade Federal da Bahia – UFBA”. Apesar das dificuldades, a rede manteve a iniciativa “Cesta Solidária”, possibilitando a comercialização da produção de algumas famílias agricultoras mais fragilizadas e a doção de cestas de produtos agroecológicos às cooperativas de Catadores/as de materiais recicláveis.

A segunda onda da Covid-19 piorou o contexto socioeconômico, além do aumento do número de mortes com novas variantes da doença, houve redução do auxílio emergencial e crescimento dos índices de desemprego. No primeiro trimestre do ano, os alimentos tiveram alta de 15%, quase o triplo da taxa oficial de inflação, segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os problemas se multiplicaram e a fome chega com mais força às comunidades periféricas, atingindo de forma mais brutal a população negra, mulheres e pessoas com baixa escolaridade.

Diante desse cenário, a cooperativa se viu desafiada a ampliar suas ações para o exercício da economia solidária. E para retomar esse importante trabalho, a RedeMoinho contou com apoio da CESE, no sentido trazer renda para famílias agricultoras descapitalizadas, como também garantir alimentação de verdade para mulheres e homens das periferias urbanas que se dedicam à uma atividade fundamental, garantidora da sustentabilidade do planeta: a reciclagem.

As doações das cestas agroecológicas foram destinadas as famílias vinculadas à Central das Cooperativas de Trabalho de Reciclagem da Bahia (CCRBA) e ao Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA). Para Joilson Santana, catador de materiais recicláveis e coordenador de Projetos Socioambientais e Economia Solidária do CAMA, a ação viabiliza a cooperação entre coletivos e aproximação das lutas: “A parceria possibilitou trazer para mais perto o campo e a cidade, principalmente diante dos impactos causados junto a população mais vulnerabilizada pela pandemia. Dentre esses públicos estão trabalhadores/as rurais e catadores/as das cidades, um dos mais afetados e expostos a COVID-19.”, afirma Joilson.

Mais de 200 famílias estão sendo beneficiadas com as Cestas Solidárias. Os alimentos são acompanhados de materiais de divulgação sobre os princípios básicos da Agroecologia e da Economia Solidária, nomeado como “Agroecologia para todos e todas”. Para reforçar esse trabalho de formação, haverá uma ação com famílias que possuem crianças: “Nas próximas entregas adicionaremos nas cestas alguns materiais escolares para trabalhar a ludicidade com produções de desenhos. Estamos planejando qual será a frase e a abordagem”, informa a coordenadora da RedeMoinho.

Atenta ao contexto a soberania alimentar em tempos de pandemia, a CESE continua apostando em iniciativas como essas que além da solidariedade e partilha, fortalecem a discussão sobre o direito à alimentação, de estar livre da fome e também de consumir de alimentos saudáveis. O que abre espaço para debate sobre a importância da agroecologia como alternativa sustentável de desenvolvimento rural.

O apoio da CESE tem sido muito importante para a RedeMoinho. A ação ‘Cesta Solidária’, do mesmo modo que outras iniciativas da rede, nasceu com o apoio da CESE e, agora, se consolida mais uma vez com o investimento da organização. A CESE acreditou no trabalho da RedeMoinho e isso foi fundamental.”, revela Arlene Guimarães.

Joilson Santana e Eduardo Guimarães, integrante da RedeMoinho, descrevem como a “Cesta Solidária” se estrutura em rede:

Os hortifrutigranjeiros são produzidos por agricultores e agricultoras associados à Cooperativa Agropecuária e Industrial de Coqueiro de Monte Gordo (COOPERMONTE).

Os produtos processados são produzidos por cooperativas e pequenos empreendimentos da agricultura familiar, destacam-se:

  • Cooperativa Mista dos Pequenos Cafeicultores de Barra do Choça e Região (COOPERBAC);
  • Cooperativa de Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COOPERCUC);
  • Cooperativa Agropecuária Dos Agricultores E Apicultores Do Médio São Francisco Ltda (COOPAMESF);
  • Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (COOPES);
  • SÍTIO FUTURO, localizado na Chapada Diamantina;
  • COPIRECÊ – Cooperativa agropecuária Mista regional de Irecê;
  • AGROSSIVICULTURA SÃO COSME E DAMIÃO, localizada no município de Ubaitaba, Sul da Bahia.
  • Cabe ao Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA) e a Central das Cooperativas de Trabalho de Reciclagem da Bahia (CCRBA), a seleção das cooperativas e das famílias que serão beneficiadas com as cestas.

 A equipe de gestão da Feira Agroecológica do MAB organiza a logística das doações.

Já foram doadas cerca de 5 toneladas de alimentos e a expectativa é dobrar esse volume até o final do ano.